Meu nome é Letícia Miyamoto, está no ar mais um Amatocast pelo canal do Instituto Amato e agradeço mais uma vez o carinho da sua audiência e participação aqui conosco para falar sobre tudo que envolve qualidade de vida. Nos últimos episódios nós recebemos convidados especiais, falamos no último sobre o tratamento estético de varizes e microvasos em pacientes com lipedema, antes sobre o lipecurso, hoje novamente nós recebemos uma convidada especial, desta vez a doutora Priscila Guarino, médica fisiatra, que vai conversar um pouquinho aqui com a gente sobre a especialidade dela. Então antes de dar as boas-vindas aqui para a nossa convidada especial, eu vou apresentar um pouquinho do currículo dela para vocês poderem conhecê-la melhor. A doutora Priscila Guarino é médica fisiatra, especialista em Medicina Física e Reabilitação, formada pela PUC São Paulo, com residência na Unifesp. Atua no tratamento de dor crônica, limitações de movimento e uso terapêutico da toxina botulínica. Atualmente oferece cuidados voltados à funcionalidade e qualidade de vida dos pacientes. Bem-vinda, doutora. Obrigada, Letícia. Obrigada pela oportunidade de estar aqui no Amatocast. Foi um prazer receber esse convite. Prazer é nosso. Inclusive a gente estava falando aqui nos bastidores, já vamos começar sobre o nome da sua especialidade, que não é muito conhecido do público leigo, que não é ali da área da medicina. Eu, por exemplo, ouvi poucas vezes e confesso que não sei detalhes sobre a especialidade. Queria que você contasse um pouquinho primeiro o que é a sua especialidade, como que é o seu dia-a-dia, como que você mais cuida ali, é mais clínico, contato é direto com os pacientes, não? Como que funciona? Bom, há medicina física ou reabilitação. A medicina física é reabilitação ou fisiatria, como é conhecida também, é uma especialidade médica e a nossa principal atuação é em relação às limitações de movimento, às restrições de movimento. Então, nossa formação é clínica, não fazemos alguns procedimentos, mas não é uma formação cirúrgica e voltada principalmente para questões de movimento, limitações musculoesqueléticas, dores, isso relacionado a qualquer doença que uma pessoa possa ter, tanto reumatológica, quanto neurológica ou ortopédica. Então, tudo que limita a gente a se movimentar ou fazer as nossas atividades do dia-a-dia vai para o lado da medicina física e reabilitação. E como que foi a escolha dessa especialidade? Na verdade, primeiro, você sempre quis ser médica, já era aquela criança que estava decidida, como que foi a escolha? O meu pai é médico, tenho médicos na família, mas foi uma coisa que foi se construindo ali na escola, ensino médio, aí no médio eu defini realmente pela medicina e a fisiatria veio também surgindo assim mais para o final da faculdade já, eu gostava muito da parte de neurologia, tive contato, tive a felicidade de ter contato com a fisiatria na faculdade, que são poucas faculdades que tem esse médico especialista com os alunos ali na formação, na graduação, então eu tive contato com a fisiatria e gostei dessa parte da gente poder recuperar ou retomar funções que os pacientes perderam de alguma maneira, né? Então eu tive contato pela neurologia e é realmente uma parte da fisiatria, da reabilitação que eu gosto bastante relacionada a doenças neurológicas, as sequelas mais permanentes, mais crônicas. Entendi, e se não fosse para ser médica fisiatra, o que você se imagina fazendo? Tinha algum plano B aí? Tinha vários planos, tinha cirurgia, tinha oftalmologia, mas eu comento quando eu conto a história assim do porquê que foi um... parece que a vida me levou para a fisiatria, então foram algumas coisas eu cheguei a fazer um estágio em cirurgia, fiquei seis meses fazendo estágio em cirurgia, depois fiquei mais um tempo fazendo em cirurgia, que era uma especialidade que eu gostava muito, eu gosto de cirurgia e aí as coisas vão mudando, a gente vai mudando a maneira de pensar, de ver e aí quando eu fui prestar residência na segunda vez, na primeira eu não passei e aí surgiu, eu falei assim nossa, eu gostava tanto, gostei tanto desse contato que eu tive na faculdade com a fisiatria, com a reabilitação, eu acho que eu vou pensar nisso daí e aí eu fiz, passei a residência, acabei passando na cirurgia e na fisiatria e acabei fazendo opção pela fisiatria mesmo. Brilhou seus olhos, né? Brilhou, brilhou os olhos e aí eu sigo nessa especialização com muito carinho, gosto muito do que eu faço já há mais de 15 anos, então é muita satisfação realmente ter ido para essa área. Legal, e hoje o seu público é mais... tem alguma fachetária, homens, mulheres, costuma ter isso ou não? Não, a fisiatria é bem ampla, é uma especialidade clínica muito ampla, então às vezes me perguntam você atende criança? Na fisiatria a gente atende de 0 a 150 anos, enquanto estiver vivo está dentro da reabilitação. Dentro da especialidade tem as suas áreas, a gente divide de uma maneira maior em pequenos incapacitados e grandes incapacitados. Então quando a gente fala numa sequela de uma fratura ou num quadro de dor crônica, de dor nas costas, de limitação de movimento por uma doença reumatológica ou por uma alteração ortopédica, a gente fala que é o pequeno incapacitado, porque ele tem uma patologia mais pontual. Ah, eu quebrei o pé, fiquei com uma dor crônica ali, muitas vezes relacionada a uma questão muscular, alguns encurtamentos. E o grande incapacitado é relacionado a doenças mais graves, então um AVC, que é um Acidente Vascular Cerebral, uma lesão mandular, um paciente de computação ou crianças com lesões neurológicas ou doenças neuromusculares, então são pacientes que demandam muito mais da reabilitação, então eu preciso de vários especialistas, eu preciso de vários profissionais de outras áreas para poder desenvolver o melhor potencial daquele indivíduo. Então a gente separa grosseiramente na fisiatria os grandes incapacitados e os pequenos incapacitados, mas idade, a gente atende todas as idades e não tem prevalência de sexo, nem nada disso, todo mundo está engolobado na fisiatria. Entendi, era justamente essa minha próxima pergunta, eu entendo que é uma equipe multiprofissional, já que normalmente está ligado a uma outra especialidade também, porque a pessoa teve aquela doença, porque se ela quebrou um pé, por exemplo, ou que se prisou de cirurgia ou não, não sei exatamente, mas assim, está sempre ligado a uma outra especialidade. Isso para você é uma coisa positiva ou às vezes, dependendo do paciente, é uma pergunta polêmica até, ou pode ser algo negativo no sentido de ser difícil fazer o paciente entender a necessidade das duas especialidades, ou até mais, andarem juntas para que ele tenha o melhor resultado? Eu vejo que tem dois lados, para a gente como profissional, eu médico e todos os outros profissionais que a gente consegue ter esse intercâmbio, essa conexão, é maravilhoso, porque tem uma troca, tem um aprendizado e o paciente consegue perceber essa diferença quando tem contato entre profissionais diferentes que estão falando a mesma língua. Então, o nosso objetivo é sempre o paciente, o que ele vai melhorar, o que vai ser trabalhado com ele. Então, todo mundo falando a mesma conversa, com o mesmo objetivo, a gente consegue alcançar um resultado melhor, mais efetivo, às vezes num tempo mais curto e o paciente consegue perceber isso. Às vezes no começo ele fica meio, mas eu tenho que passar com esse, com esse, com esse, com fulano, com ciclano, então fica, não posso resolver agora, rápido, naquela ansiedade, naquela angústia, não, eu quero resolver rápido. Mas com o tempo ele vai percebendo que realmente ter essa equipe, seja de especialidades médicas, ou seja, de outros profissionais, como fisioterapeutas, psicólogos, terapeutas ocupacionais, nutricionistas, fonodiólogos, isso vai trazer um melhor resultado, um melhor benefício. Tá, legal. Tem perfis e perfis de cada paciente, realmente é difícil colocar todo mundo ali como um padrão. E como que funciona uma consulta, por exemplo? Qual que é a primeira avaliação que acontece de um paciente que chega pra você? Como que funcionam os estágios ali? A consulta médica na fisiatria é uma consulta clínica, como as outras. Então a gente avalia o paciente como um todo, integralmente, tanto questões clínicas, diabetes, pressão, doenças cardíacas, quanto a doença que realmente levou ele ao fisiatra. Então, vamos dizer, ah, eu tenho uma dor nas costas. Então eu vou avaliar as questões relacionadas a essa dor nas costas, se é uma questão mais ortopédica, se é uma questão mais neurológica, qual é a causa dessa dor ou uma questão muscular. Eu brinco que o fisiatra, se a gente fosse ter um órgão, então eu tenho o cardiologista, cuida do coração. O endócrino cuida dos hormônios, das glândulas. O fisiatra seria o médico que cuida do músculo, da função do músculo, da qualidade daquele músculo, da saúde daquele músculo. Então avaliando esse paciente com uma dor nas costas, eu vou avaliar a causa dessa dor, todo o histórico que ele tem de doenças clínicas que podem interferir nessa dor ou interferir no trabalho de reabilitação física e fazer o exame clínico médico comum. Então a gente faz o exame geral, faz o exame neurológico, faz o exame ortopédico de acordo com a queixa dele. Aí exames também, dependendo do que for o caso da queixa que trouxe, e aí a gente faz esse programa. Então, por exemplo, se eu for pensar numa dor nas costas, eu brinco que geralmente esse paciente já passou com todas as outras especialidades, porque nós somos a menos conhecida, né? Então, já passou com o clínico geral, já passou com o ortopedista, já passou com o neurocirurgião, já passou com o reumatologista, e às vezes já passou até com o psiquiatra e chegou. Ah, eu vim aqui. Então chega com os exames, chega com um monte de história, geralmente meses depois que começou a queixa dele. Então a gente vai considerar todo esse histórico, tudo que já foi feito. Olha, então, por exemplo, fatores mecânicos da dor lombar, né? Que a maioria não precisa de uma cirurgia ortopédica ou com o neurocirurgião, né? A grande maioria dos casos. Então, o quanto a questão postural no seu trabalho, nas suas atividades interfere, o quanto o seu sedentarismo, se você é mais ativo ou não, o quanto a questão do sobrepeso, você está acima do peso ou não está acima do peso, o que vai interferir na sua dor nas costas. E aí a gente vai manejando, coordenando esse tratamento, inicialmente com as orientações médicas, medicação, pequenos procedimentos não cirúrgicos que a gente consegue fazer no consultório ou às vezes no hospital dia, e mais esses outros profissionais. Olha, é importante você perder peso, então, nutricionista, endócrino, é importante você fazer, agora que você está com dor, fazer uma fisioterapia, né? Depois que você melhorar a dor, a gente vai partir para uma atividade física, então, precisa ter um educador físico como referência, né? E aí, como a gente usa muito a questão do movimento como terapia também, que aí a gente tem essa interface muito grande com a fisioterapia, né? A gente consegue orientar, olha, nesse momento do seu problema, nós vamos fazer tal tipo de exercício, né? Ou quando passa por um educador físico, a gente consegue orientar, olha, este exercício, ou este grupo muscular eu preciso alongar, ou eu preciso fortalecer, ou eu preciso treinar o equilíbrio, ou eu preciso de um ajuste de algum equipamento, né? Para ele conseguir andar melhor, melhorar o equilíbrio, então, a gente vai avaliando tudo isso nesse acompanhamento, né? Nesse processo de reabilitação, por isso que a gente chama que é um processo, né? Tem a avaliação inicial, tem todas essas interferências, esses tratamentos, tanto do médico fisiatra quanto dos outros profissionais. E você falou também do paciente que vem ali das sequelas, não sei se essa seria a palavra, neurológicas, né? Que vem com esses problemas neurológicos. Esses pacientes também fazem parte desse processo, chega a uma alta, por exemplo, ou é um processo para melhorar a qualidade de vida, a condição daquele paciente, mas que é algo para sempre ali na vida da pessoa. É excelente, todo mundo traz essa pergunta, né? O paciente que já chega com angústia, né? Não, os pacientes neurológicos são de um tratamento mais longo, né? Então, aí varia um pouco em relação à criança, em relação ao adulto, porque a criança é um indivíduo em desenvolvimento. Então, se eu pego uma criança com alguma sequela quando era um bebê, eu vou ter que acompanhar essa criança, pelo menos até ela terminar o crescimento, né? Para eu poder ir avaliando e evitando alguma complicação daquelas sequelas, estimulando o desenvolvimento daquela criança, porque ela ainda está em formação tanto da parte musculoesquelética quanto da parte cognitiva, da parte de comunicação, da parte social, de educação. Então, é um trabalho mais longo, a longo prazo, né? E o adulto que teve uma sequela, o objetivo principal é a gente conseguir reestabelecer o que ele conseguia, o que ele tinha de autonomia, o que ele tinha de trabalho, de social, antes de ter aquele evento, né? E aí, esse primeiro período é a principal fase da reabilitação, né? E nesse processo, a intenção é educação também. Então, ele vai aprender a fazer algumas coisas, ele vai entender que ele precisa manter uma rotina ou de uso de uma órtese, ou de uma atividade física, seja ela com o auxílio de um fisioterapeuta ou de um educador físico, ou sozinho às vezes, né? Então, esse primeiro atendimento, vamos dizer assim, esse primeiro acompanhamento é pensando em ele chegar no melhor potencial dele. Então, por exemplo, se eu tive alguém com AVC, um adulto, a intenção é que a gente consiga treinar com que ele volte a ter autonomia para o autocuidado, conseguir se vestir, tomar banho, escovar dente, sair da cama e voltar para a cama, recuperar marcha, se tiver condição para isso, voltar ao trabalho, se tiver condição para isso, sair e ter a sua vida social. Então, vai depender muito de qual foi a intensidade da sequela, a gravidade da sequela. Então, esse primeiro momento é de treinamento e de recuperação. E a gente sabe que todas as doenças neurológicas, elas vão ter um momento de estabilidade. Então, a gente tem uma melhora, uma curva de melhora ascendente, chega um momento em que ela vai ficar mais ou menos estável, onde eu tenho um período ali de recuperação que já está todo formado, todo recuperado, e aí eu vou ter que lidar com aquela dificuldade que ficou residual. Então, a reabilitação, ela vai acompanhando esse crescente, essa melhora, e quando chega na estabilidade, aí a gente vai também manter a melhora, porque se eu deixar de fazer, eu perco. Não que eu vá regredir como eu estava no começo, mas eu deixo de estar no meu melhor potencial, eu brinco. Se eu tiver que não fizer nada, não fizer atividade física, não ler um livro, não sair para fazer o social, eu vou estar no meu estado mínimo. E se eu tiver isso, se eu fizer uma atividade física, se eu for ler um livro, se eu for ter uma vida social, eu vou estar numa condição melhor. E para os que têm uma sequela, é mais ou menos esse pensamento. Se ele não fizer nada ou se ele fizer pouco, ele não vai estar no seu melhor eu, no seu melhor indivíduo, mesmo que tenha uma dificuldade de movimento, uma dificuldade de comunicação. Então é um acompanhamento inicialmente mais próximo de reabilitação, e quando eu chego na estabilidade da doença de base, eu já vou ter um acompanhamento mais de rotina, eu já não tenho mais tantas intervenções, não vou precisar de tanta interferência de terapias. Então eu consigo, antes eu fazia cinco vezes por semana, agora eu faço duas, e duas eu faço uma atividade física. Então a gente vai também orientando a organizar essa rotina para a gente conseguir manter a melhora. Agora casos mais crônicos, de dor crônica ou de uma sequela ortopédica, a gente vai fazer esse acompanhamento cronicamente, como eu trato de uma pressão alta a vida inteira, como eu trato do diabetes a vida inteira. Se eu tenho um quadro de dor crônica, de fibromiagia, eu vou tratar a vida inteira, porque eu não tenho um tratamento para aquela doença que me gerou aquela limitação, ou aquele quadro doloroso. Eu vou ter que cuidar dela sempre, com 20 anos, com 30, com 40, com 50. Então eu vou ter que ter sempre esse acompanhamento para poder lidar com aquela condição que vai ficar comigo cronicamente. Como que funciona o atendimento? É só no seu consultório, ou às vezes acontece de ter um acompanhamento na casa mesmo da pessoa, a domicílio? Porque você até citou dessa parte de fazer um paciente com sequelas neurológicas, voltar a ter a rotina ali que costumava ter, descober o dente, levantar da cama. Então como que isso pode ser feito no consultório, ou tem de fato essa parte em casa mesmo do paciente? Tem casos mais graves, onde a gente tem a dificuldade desse paciente de mobilidade, de sair de casa. Tem o atendimento domiciliar, pode ser consultório, pode ser domiciliar, pode ser intra-hospitalar, se for precoce. A gente tem essa atuação no paciente ainda internado, de já conseguir fazer algumas orientações no hospital antes dele receber a alta, para depois seguir a parte do acompanhamento com o fisiatra fora, no ambulatório. Então a fisiatria entra em várias áreas, tanto no intra-hospitalar, quanto consultório, quanto o atendimento domiciliar, se é uma pessoa com uma condição de mobilidade mais restrita, com dificuldade de se mover, o que depende de muitas pessoas, às vezes de duas pessoas para conseguir sair de casa, colocar numa cadeira de rodas e ter que ir o acompanhante, mais um ajudante para acompanhante. Então tem essas situações. E tem uma área até mais nova e recente, que é a área da desospitalização. Então pacientes graves que ficam muito tempo internado. Então agora existem alguns hospitais que se chamam hospitais de desospitalização. Então é um hospital meio de transição, onde ele vai passar daquele cuidado hospitalar, numa fase de transição, para ele poder ir para casa. Então às vezes o paciente grave que está com sonda ainda, está com tracostomia ou está precisando de enfermar, de equipe de enfermagem, procedimentos de cuidado, ele vai para esse hospital de desospitalização, que a gente fala o termo, e lá vai ser feito o processo para ele ir retomando a rotina dele. Então a tentativa de tirar a sonda e voltar a alimentação pela boca, de começar essa questão da reabilitação que eu comentei, de fazer as coisas, as atividades de vida diária, tomar banho, se vestir, se alimentar e fazer a sua higiene, tentar voltar a começar a fazer isso sozinho, que no hospital estava todo mundo fazendo por ele, ficar mais tempo sentado, voltar a ficar em pé. Então pacientes mais graves têm essa transição. Então essa reabilitação que não é dentro do hospital, mas também não é em casa, é numa transição, para que quando ele for para casa ele já esteja numa condição mais fácil, com mais autonomia e com mais facilidade para os outros que forem cuidar, os familiares, os cuidadores conseguirem ajudá-lo. Então é bem a cara da fisiatria, esse processo de transição. E é bastante importante que a gente não perde, não fica um buraco no meio. Às vezes o paciente sai do hospital, vai ficar preocupado em cuidar daquelas condições todas que deixaram ele internado e fica um pouco para depois essa parte dele ir retomando realmente as coisas que ele fazia. E aí a reabilitação, a fisiatria fica, vou deixar para depois, que eu ainda preciso cuidar de outras coisas. E na verdade, o quanto antes a gente conseguir orientar e intervir, melhor para toda essa retaguarda, tanto para o paciente quanto para os familiares, quanto para a questão de ressocialização, de voltar para a atividade de trabalho que ele tinha, para a parte mental, que é tão falada agora, a gente cuidar da saúde mental. Então a gente retomar o que se tinha antes de rotina, de vida, é muito importante para esse paciente, para ganhar autoestima, para ver que ele ainda faz parte daquilo que ele já conseguia fazer e reduzir essas angústias de melhora, quanto tempo eu vou demorar para conseguir retomar tudo, ou eu vou retomar com alguma adaptação. Então é uma área bem ampla e a gente tem essas particularidades de cada caso, se for um caso mais grave, se for um caso mais leve, é um menor tempo, um menor gasto de tempo em terapias, em tratamento. Então é uma especialidade bem ampla. Sim, é bastante coisa mesmo. E doutora, eu imagino que muita gente tem a dúvida, acaba confundindo até com a fisioterapia. Qual que é a diferença, de fato, na prática? Qual que é a parte que a fisioterapia pega que a fisioterapia não pega? A fisiatria é uma especialidade médica, então a gente tem uma formação médica como qualquer outra especialidade e na residência a gente vai para a parte de reabilitação, movimento muscular, neurológico, fazer todo esse processo de recuperação de alguma sequela. A fisioterapia é um outro curso de graduação que não é medicina e que usa o movimento como terapia. O fisiatra também, só que o fisioterapeuta aplica as técnicas de movimento para a recuperação. E o fisiatra é o médico que faz o diagnóstico e que consegue orientar e fazer o trabalho junto com o fisioterapeuta, junto que eu digo, não o mesmo trabalho. A gente faz o diagnóstico médico e como se eu fizesse uma prescrição de exercício. A técnica que vai ser feito, o fisioterapeuta é o mais qualificado, então ele estudou técnicas de exercício para a gente conseguir, por exemplo, fazer um fortalecimento muscular específico. Então o médico fisiatra consegue identificar isso como um tratamento e o fisioterapeuta vai fazer de fato esse tratamento, é aplicar essa técnica. E aí o médico faz a prescrição de medicação, a gente consegue fazer alguns procedimentos ambulatoriais, como inativação de ponto gatilho, infiltração articular, infiltração de medicamento, uso da toxina botulínica, como você falou, como terapêutico. Então são procedimentos médicos que o médico fisiatra consegue fazer para auxiliar naquele paciente. E o fisioterapeuta vai aplicar realmente o movimento como tratamento. Eu brinco que dá para a gente comparar igual o psiquiatra e o psicólogo. Tem gente que confunde, mas tem abordagens diferentes. E a gente falou agora também da toxina botulínica. Muita gente pensa na toxina botulínica como a marca, que na verdade é o nome da marca, o Botox. O Botox é o nome da marca. Já pensando na parte estética. Mas também é muito usada principalmente nessa parte quando tem alguma sequela neurológica. Como que funciona isso, doutora? Então, a toxina botulínica é uma medicação, ela é um relaxante muscular. Ela faz uma paralisia muscular. Essa é a ação da toxina botulínica. E é para isso que a gente gosta dela nas rugas, porque vai ficar tudo relaxadinho, paradinho e não vai fazer a ruga. Então a toxina é uma arma bastante útil para a gente, principalmente na neurologia. Ela entrou na parte terapêutica nas doenças neurológicas. Então, para tratar tanto movimentações involuntárias de musculatura, que tem uma gama de doenças neurológicas que tem distonias, são movimentos involuntários que a pessoa não consegue controlar, e a espacidade, que é um tônus muscular aumentado por uma sequela neurológica. Então, se eu tive um AVC, ou se eu tenho uma criança com paralisia cerebral, ou se eu tenho um paciente com esclerose múltipla, eu vou ter uma alteração neurológica que leva à musculatura do corpo, geralmente em alguma parte, no braço, na perna, ou de um lado, como acontece no AVC, para ficar mais rígida. Quando eu vou movimentar, eu tenho uma dificuldade de movimentar aquele membro, não só por fraqueza, mas por tensão muscular. Aquele músculo é mais tenso, ele é mais rígido na hora que a gente vai movimentar. E aí a toxina entra como um tratamento. A gente tem medicações de tomar, medicações orais, tem a toxina que é injetável e que vai direto naquela musculatura que está mais tensa e que está atrapalhando alguma função. Então, a visão é sempre essa. Eu não quero tratar, na verdade, a tensão muscular ou movimento involuntário. Eu quero tratar todos eles. Eu quero tratar aquele que está atrapalhando para eu fazer alguma coisa. Então, se eu tenho um braço de um paciente com AVC muito rígido, muito espástico, onde o cuidador ou o próprio paciente vai tentar esticar para ele poder vestir a roupa e ele tem muita dificuldade, porque o braço é muito rígido, isso eu estou atrapalhando uma função, que é o vestir a roupa, por exemplo. Então, eu posso usar toxina nos músculos específicos que mantêm aquela postura e aí eu vou deixar esse braço mais relaxado. Mesmo que ele tenha fraqueza para movimentar por causa da sequela do AVC, ele vai conseguir, ele ou o cuidador vai conseguir esticar o braço um pouquinho mais ou um pouco mais, dependendo do grau de limitação que ele já tenha e vai conseguir vestir a roupa com mais facilidade. E nos casos de movimentação involuntária, distonia, o oftalmologista usa bastante para bléfaro espasmo, que é um piscar incontrolado às vezes, e aí tem uma gama bem grande de doenças neurológicas que têm algumas movimentações involuntárias e aí também é usada toxina para reduzir o desconforto. Então, tem paciente que tem dificuldade para abrir o olho ou a posição da cabeça, no torcicolo espasmódico, então aí é feita toxina para ele conseguir posicionar melhor a cabeça, conseguir focar a visão, não atrapalhar, reduz dor, porque esses pacientes com uma hipertonia ou com uma movimentação involuntária, aquele músculo está o tempo inteiro contraído, o tempo inteiro funcionando, ele tem pouco relaxamento, e aí isso gera dor, uma dor muscular, aquela dor de... uma dor muscular, uma dor de contratura, sim. Então, indiretamente a toxina vai atuar também nessa questão da dor, que é uma outra área que está surgindo da toxina botulínica também para tratamento de dor, tanto em condições neurológicas, como às vezes em outras sequelas, onde eu tenho um desequilíbrio muscular, que um músculo está mais tenso que o outro, e eu preciso de um auxílio para relaxar aquele músculo específico. Então, o legal é que ela é músculo específico, não é igual um remédio que eu tomo e eu vou fazer um relaxamento para o corpo inteiro. Não, a toxina é direcionada, eu quero esse, eu vou fazer esse, ou esse, ou esse grupo de músculos. Então, por isso que a gente tem que ter um objetivo, o que eu quero melhorar com ela? Eu quero que facilite a roupa, eu quero que a posição do pescoço, que está ruim por uma movimentação involuntária, ele consiga melhorar essa posição e não ter tanta dor. Então, a gente vai, vamos dizer assim, direto no ponto que quer ser trabalhado. No problema. No problema. E doutora, na parte psicológica, como que fica também? Como que é lidar diretamente com esses pacientes? Imagino que tenha casos que tenham te marcado também, de pessoas que ficaram mais tempo ou que ainda estão em tratamento, como você citou, que é um processo, às vezes, um processo mais longo. Então, como que é lidar com esses pacientes que, às vezes, de repente, tiveram que voltar, tiveram que, do início, aprender a andar, aprender a fazer algum movimento que antes era algo comum, que a gente, às vezes, nem para para valorizar mesmo isso, né? É até uma mensagem para quem está acompanhando e, às vezes, a pessoa precisa repreender tudo isso e você vendo de perto, em uma rotina. Como que funciona? Olha, eu falo que depois de mais de 15 anos aí na reabilitação, a gente tem vários, vão surgindo vários casos, né? Alguns mais tristes, outros... Mas a grande maioria é sempre com muita alegria, porque a gente consegue acompanhar o paciente do começo, que era essa, como você falou, é a ansiedade, tipo, quando que vai acontecer? Quando que vai mudar? Eu quero fazer, eu quero sair dessa situação difícil. E aí a gente vai acompanhando e vê o resultado final, que, às vezes, não é a expectativa, que é uma outra coisa que a gente precisa trabalhar muito na reabilitação, é qual a expectativa que aquele indivíduo tem com o resultado. Então, existe uma parte de educação que a gente faz, aproveitando essa equipe toda que eu comentei multidisciplinar. Então, o fisiatra sempre tem esse momento do, olha, eu preciso que você saiba o que você tem, que você entenda como é o tratamento, se eu vou ter uma cura ou não, e se eu tiver uma sequela ou uma limitação, o que a gente pode fazer com ela? Porque quando eu vou pensar numa sequela, é sempre, eu já estou ali com uma restrição, uma limitação, e na grande maioria das vezes, a gente vai ter que lidar com ela o resto da vida. Então, esse trabalho da pessoa entender como que a recuperação... Olha, nós passamos da fase que é o período de recuperação habitual e a gente ficou com essa situação difícil. Como que a gente pode melhorar isso para você conseguir retomar a sua vida, retomar o seu social? Então, durante todo esse caminho, esse acompanhamento, é uma parte importante, por isso que às vezes, apesar de em alguns momentos a gente ter bastante receio, é importante o acompanhamento psicológico, é importante o acompanhamento psiquiátrico para poder ter o resultado no final que seja de acordo com a expectativa real, vamos dizer assim, fisiológica do corpo que ficou com uma cicatriz e do que a pessoa espera, senão vai ser sempre um insucesso. Então, não adianta a gente fazer todo esse trabalho se o próprio paciente não conhecer o que ele teve, não conhecer o que aconteceu, não entender isso e ver que talvez em algum momento a gente tenha uma limitação. E isso serve para a dor crônica também, porque tem situações que a gente não vai ter a solução da causa da dor. Então, nós vamos ter que trabalhar para ter a melhor qualidade de vida dessa maneira. Então, para a gente ter o sucesso, eu preciso que esse paciente entenda isso também. Eu acho que essa é a parte mais difícil, que a gente costuma muito, eu vou deixar com o outro resolver, ou fazer ou me dar uma solução. E a gente não se empodera do que realmente a gente precisa fazer da nossa parte, que é só o outro. O que o outro ajuda, a gente ajuda, mas a gente tem uma grande parte do que o paciente também entende do que ele faz. Eu acho essa parte mais difícil, mas o final de acompanhamento, quando a gente consegue realmente seguir, é sempre gratificante pelo que a pessoa evoluiu, conquistou, ou retomou o que ela tinha perdido. As crianças, porque evoluíram, ou os adultos, porque reconquistaram, porque melhoraram em vez de tomar o remédio cinco vezes por semana, vai tomar uma ou não vai tomar, vai tomar duas vezes no mês. Então, tudo é uma referência do que a gente tinha anterior. Então, é essa evolução mesmo que... Ah, mas eu ainda continuo tomando um remédio uma vez ou duas vezes o remédio no mês. Mas antes eu tomava sete dias na semana, e às vezes dois dias, duas vezes por dia. Então, como a gente tem essa condição de pacientes que geralmente tem uma coisa que vai ser com eles para a vida, quando a gente tem qualquer melhora, quando se tem essa melhora, mesmo que parcial, eu achei que eu fosse parar de tomar remédio. Olha, mas não vai dar para parar de tomar remédio. Então, vamos entender que não vai dar, e que se eu precisar tomar só duas vezes por mês, isso é o nosso objetivo, isso é bom, isso é uma recuperação, isso é uma melhora. É aquele famoso alinhamento de expectativas. Exatamente. Eu imagino que a família também é muito importante nesse processo. Claro, parece um triângulo mesmo, dos médicos, toda a equipe, com o paciente, e a família para dar o apoio também nesse processo todo. Nesses casos, como eu comentei, principalmente dos grandes incapacitados, são sempre pessoas que precisam de auxílio. Na grande maioria, a família tem cuidadores que precisam auxiliar nesse momento de mudança por alguma doença mais grave. Então, é de extrema importância realmente que a família também participe disso e consiga dar esse suporte para essa pessoa. É essencial, na verdade, senão fica tudo meio perdido. A gente não patina no mesmo lugar, não é secar gelo, não estamos secando gelo, porque não consegue dar seguimento. E isso vale também para depois, como você perguntou, Naiko, e quanto tempo a gente fica? Em que momento termina? Na verdade, não tem um término, mas tem esse momento da estabilidade onde a gente tem que manter alguma coisa. Então, não é importante a gente fazer atividade física pelo menos, sei lá, duas vezes por semana, ou três, ou quantos... Então, para o paciente com uma sequela, também é importante que ele tenha esse movimento, porque os músculos, as articulações foram feitas para se mover, e se ele está lá parado, ele vai ter complicações, vai ter limitações por causa disso. Então, é mais ou menos essa ideia de ter a rotina como qualquer indivíduo tem a sua rotina, de fazer a sua atividade, de ter a sua ocupação, às vezes não tem condição de retornar ao trabalho, mas de ter alguma atividade de hobby, que tenha alguma rotina para realmente ir retomando essa questão de pertencimento, de autoconfiança, de social. Então, a gente é uma abordagem bem ampla, não adianta ver só a parte médica, senão eu vou ter um sucesso com certeza, trabalhando com limitações que não se curam. Então, a gente precisa realmente ter essa visão de ter todos esses profissionais, e o objetivo final é sempre que o paciente esteja integralmente na melhor condição que ele conseguir, de acordo com a sequela, a limitação, o quadro de dor crônica. Certo. E agora essa parte também até de prevenção, que eu acho que tem um quadro aqui que a gente fala as mitos e verdades para o médico que vem aqui, para o especialista, seja qual for a área, falar se é verdade ou se é mentira. Então, antes, eu só queria te perguntar a parte de prevenção, porque às vezes quem chegou até aqui tem curiosidade, mas não tem nenhuma condição, não tem ninguém próximo ali que necessite da sua especialidade, mas tem a curiosidade de saber o que pode fazer para prevenir, ou tem algum alerta, que a pessoa começou a sentir uma dor ali, para que não vire uma dor crônica, para que não vire algo mais difícil, digamos assim, de resolver? Sim, existe a definição de dor crônica, que é quando é uma dor persistente, além de três meses, mas a dor é um sinal de alerta do nosso corpo. Então, a gente sempre tem que dar uma atenção para aquela dor, principalmente se ela é uma dor persistente, ou ela é persistente ou ela é recorrente. Geralmente, quando ela é persistente, a gente acaba indo no pronto-socorro. Começou a doer hoje, continuou, continua amanhã, depois eu vou no pronto-socorro que eu preciso resolver. Mas questões ortopédicas, ou às vezes questões neurológicas, que começam a aparecer mais lentamente, uma hérnia, uma compressão nervosa, elas são recorrentes. Ah, hoje doeu um pouco, aí depois melhorou, aí depois piorou de novo, aí eu fiz tal coisa, piorou de novo. Então, vale realmente não deixar que isso, se isso está se repetindo no mês, na semana, ah, mas é leve, melhorou, eu tomei o remédio, melhorou, mas depois ele voltou, eu fiz tal coisa, tal movimento, ou em tal situação aquilo ali voltou. Então, vale realmente ser avaliado, não dá para a gente deixar passar. Então, precisa de uma avaliação do médico, às vezes muitas fisioterapeutas também conseguem auxiliar, às vezes tem paciente que já está na fisioterapia, mas se ela fica realmente recorrente, olha, semanalmente ou mensalmente eu tenho aquele sintoma, mais ou menos do mesmo jeito, então é importante ver isso, principalmente falando das questões ortopédicas, musculares, mesmo para quem é praticante de alguma atividade física, e toda vez eu faço aquele movimento, aquele ombrinho dói, aí dói, então isso precisa ser avaliado, porque às vezes não tem uma lesão ainda, eu faço uma ressonância, eu faço um ultrassom, um exame, eu não tenho uma lesão significativa que fale, ah, mas por que não tem uma lesão aqui que justifique a sua dor? Mas às vezes a dor é antes da lesão, então é um alerta, a dor é realmente um alerta, então às vezes eu estou fazendo o movimento de uma maneira errada, eu estou compensando o movimento, e aí eu vou ter uma dor muscular, eu vou ter às vezes uma dor articular, que vai ser, não teve uma lesão, mas ela pode vir a ter uma lesão, porque eu não estou fazendo aquele movimento do esporte, ou da prática esportiva que eu faço da maneira correta, então precisa também avaliar isso, senão eu vou continuar fazendo ele da maneira errada, eu vou continuar tendo a dor até isso virar uma lesão ligamentar, até isso virar uma lesão de cartilagem que demora, então não é incomum a gente fazer os exames, o paciente está com dor, faz o exame, nossa, mas não, não tem nada significativo, sim, mas eu tenho um alerta, então precisa realmente avaliar. E nos casos das questões neurológicas, dessas doenças mais graves, aí é o cuidado de saúde, então o controle do diabetes, controlar a pressão, aqueles de sempre, colesterol, alimentação, exercício físico, avaliação regular, se a gente já tem alguma história na família de problema cardíaco, de ter esse segmento clínico, se eu cuido da minha saúde, a chance de eu ter alguma coisa é menor, e da parte geral, aí eu vou evitar um AVC, vou evitar uma lesão vascular, que pode avançar para uma amputação, e tem os inevitáveis que são os acidentes, os acidentes são inesperados, inevitáveis e imprevisíveis, e aí são as questões de prevenção gerais que a gente vê nos acidentes, mas também realmente esses são inevitáveis. Sim, com certeza. Agora doutora, então mitos e verdades, que acho que é legal para a gente, algumas coisas eu estava dando uma olhada aqui, a gente até falou já, já conversou, mas para recapitular e falar se é verdade ou mentira, o primeiro, o fisiatra e o fisioterapeuta, são a mesma coisa? Essa foi uma das perguntas aí, e foi essa explicação, que tem de fato uma diferença, como ficou então a comparação com o psiquiatra e o psicólogo. O psicólogo, né, a nossa formação é diferente. Existem dúvidas, mas... E às vezes vem, ah, mas o fisiatra faz a mesma coisa que o ortopedista, porque a gente tem uma área ali bem intercambiável de ação, e aí a explicação é que o fisiatra tem uma formação clínica e o ortopedista tem uma formação mais cirúrgica. Então isso faz uma diferença porque toda abordagem de tratamento do fisiatra vai ser pensando em eu não chegar numa cirurgia. E o ortopedista acaba tendo mais essa visão de, ah, se eu tiver alguma lesão eu vou operar, eu vou fazer uma... Claro, eles têm a parte clínica da ortopedia também, então essa parte clínica, a ortopedia, fisiatra é bem ali junta. E do neuro também. Então o que eu separaria do fisiatra e do neuro? Então se eu tenho um paciente, por exemplo, que a gente está dando, do AVC, então o neuro vai cuidar da medicação pra controlar se ele tiver uma convulsão, da parte clínica relacionada diretamente ao que causou o AVC e a patologia do AVC. E o fisiatra ele vai ficar com a parte da reabilitação. Como eu vou, o que eu vou precisar, de que profissionais de reabilitação eu vou precisar, vou precisar de alguma órtese, né, quais adaptações eu posso fazer na casa, que orientações eu posso fazer pra esses cuidadores, né, coordenar todos esses profissionais pra que a gente vá no mesmo objetivo, né, olha, esse paciente não tem condição de andar, não adianta o fisioterapeuta estar tentando colocar ele pra andar. Ou eu vou precisar colocar uma órtese, né, que a órtese é um aparelho que eu uso pra ajudar a posicionar o membro, né. Então antes dele tentar fazer ele andar, eu vou precisar colocar uma órtese, que senão eu não vou conseguir apoio desse pé, por exemplo, pra ele ter uma boa estabilidade, um bom equilíbrio quando ele estiver em pé, né. Então faz esse a parte do neuro ele vai fazer o segmento neurológico de prevenção e de cuidados com as doenças que causaram o AVC, né, e o fisiatra essa parte vai ficar com o neuro e o fisiatra vai ficar com a parte da reabilitação, né, como a gente pode melhorar, o que a gente pode fazer, o que preciso de procedimentos, né, preciso de toxina, preciso de medicação pra dor, tá com uma dor de origem neurológica ou não, faz toda a integração com esse equipe multidisciplinar de fonoaudióloga, de psicóloga, de terapeuta ocupacional, fisioterapeuta, nutricionista, né, toda essa coordenação, esse link com os outros profissionais pra poder ter os melhores resultados, né. Esse é legal. A fisioteria é só para quem sofreu um acidente grave? Então como a gente falou que não, que a gente já deu vários exemplos, eu vou mudar a pergunta. Às vezes nem sempre um acidente grave, né, doutora? Às vezes um acidente que até é mais leve, às vezes a pessoa teve uma sequela ali, não necessariamente um acidente grave, né. Às vezes uma entorpe de tornozelo, né, ou uma fratura disso, ou uma fratura de pé, né, uma lesão de nervo, né, que tem uma dificuldade de movimento. A reabilitação começa apenas depois da cirurgia? Não. No caso de uma cirurgia? Não. Ótima pergunta! Começa antes, com certeza começa antes, né, porque, como eu comentei, a gente só vai ter uma lesão depois que eu tive, a não ser que seja um acidente, né, eu vou ter uma lesão se eu já tenho fatores que estão favorecendo com que essa lesão aconteça. E a cirurgia não vai tratar nenhum desses fatores. Então eu preciso já fazer um preparo, e principalmente se eu vou ter, por exemplo, uma cirurgia onde eu vou ficar mais, vou ficar imobilizado, ou vou ficar mais restrito em relação ao movimento, se a gente consegue fazer um preparo dessa cirurgia, o pós-cirúrgico é muito mais tranquilo, porque eu já saio, né, eu já volto na cirurgia, não numa condição ruim, de dor, de restrição, e aí fui pra cirurgia e quando eu saio depois, aí eu tô pior do que eu tava antes, porque eu fiquei restrito. Eu já me preparo pra eu estar no meu melhor pra minha cirurgia, porque assim que eu puder voltar ao meu movimento, tirar a minha imobilização, eu já não, eu não vou estar tão ruim, né, então, e também em relação a essa parte de educação, olha, eu espero o que da cirurgia? Ela pode me, vai resolver tudo ou eu vou ter que fazer mais alguma coisa depois? Então tem essa parte também, então é super importante o preparo pra cirurgia, muito, muito importante. Essa daqui eu imagino que você escute muito, medicina de reabilitação é só para idosos? Não, eu brinco que me perguntam, ah, você é fisiata, é sugeriata? Não, não sou sugeriata, nem periatra e nem psiquiata. Tudo com atra. Apesar de cuidar dos idosos e das crianças, Pode até ser de criança, né? Não, mas a gente... O fisiatra não tem essa restrição de idade, em qualquer momento da vida, onde eu tiver alguma coisa que me restringe a me movimentar ou acomete alguma questão muscular, o fisiatra entra. E pra gente finalizar, doutor, a fisiatria é uma especialidade nova no Brasil? Olha, a fisiatria ela apareceu no Brasil lá em torno da década de 50, 60, no surto da poliomielite. E ela é um pouco mais antiga no mundo, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, que começou a surgir com os sequelados de guerra. Ah, que interessante, é uma curiosidade mesmo. Então, sequelados de guerra. Agora, realmente, que ela cresceu aqui no Brasil foi com as crianças no surto da poliomielite. Então, a gente tinha as outras especialidades, tinha o ortopedista, que era o principal especialidade médica que cuidava, naquela época, das crianças com sequela de poliomielite, da paralisa infantil. Então, foi nesse momento que surgiu, aqui no Brasil, essa demanda para eu ter um médico que vai ser o médico que acompanha essa criança na reabilitação. O ortopedista avaliou, fez a cirurgia, porque muitos precisavam de cirurgia, precisam de cirurgia na vida adulta, mas não tinha na ortopedia, nesse caso, uma formação para a reabilitação. Então, alguns ortopedistas, alguns neurologistas, alguns reumatologistas, foram mais para essa área, como se fosse uma subespecialidade dentro da especialidade. E aí, com isso, surgiu essa demanda de eu ter um médico que vai acompanhar essa parte da reabilitação nessas sequelas. Então, começou mais com as grandes sequelas, que é a poliomielite, os sequelados de guerra. Então, esses eram os grandes incapacitados que deram o start para a medicina de reabilitação ir se desenvolvendo. E aí, a gente vai tendo essa abrangência agora maior das doenças musculares, das doenças reumatológicas, mas pensando nessa qualidade de vida, nessa condição de melhorar a qualidade de vida de quem tem alguma restrição por alguma doença que outro especialista já tratava. Perfeito. Doutora, eu quero muito agradecer a sua participação aqui no Amatocast. Inclusive, foi um papo muito, tenho certeza, que para quem não conhecia a especialidade, às vezes acabou um médico. Tem bastante médicos também que acompanham aqui. Você acaba se interessando. Às vezes alguém que está decidindo uma especialidade já ficou sabendo de uma nova. Ou para quem é paciente também, que tem alguma curiosidade sobre esse assunto, vou deixar o espaço aberto. Vou pedir para você passar, não sei se você prefere passar uma rede social ou um site, enfim, o que você preferir para as pessoas poderem te procurar. Pode falar o que você preferir. Tem o Instagram ou o site é doutora Priscila Fisiatra. Legal. A gente vai deixar o link então aqui para quem já tiver algum tipo de interesse, pode já procurar direto aqui nos links que a gente está deixando. E também a gente vai deixar o espaço aberto para o pessoal comentar aqui no vídeo se ficou mais alguma dúvida, algo relacionado à sua especialidade, para que você volte aqui no Amatocast para a gente conversar de novo. Muito obrigada. Eu que agradeço. Fiquei muito feliz. E realmente, como é muito grande, às vezes tem muito assunto para outros temas específicos. É passar muito rápido. Exatamente. Obrigada. Eu também quero agradecer o nosso patrocinador aqui da Amatocast, para quem já acompanha há bastante tempo sabe, para quem está chegando agora, a gente tem um patrocínio que é do Laboratório Origem, especializado em saúde intestinal, que é onde tudo começa. O foco da Origem é qualidade de vida e prevenção. Obrigada a você que acompanhou aqui até o final. Não deixe de curtir, comentar e compartilhar, que é muito importante para que a gente continue trazendo os nossos especialistas em saúde, de forma geral. Até a próxima. Tchau!