Meu nome é Letícia Miyamoto, está no ar mais um Amatocast pelo canal do Instituto Amato. E agradeço mais uma vez o carinho da sua audiência e participação aqui conosco para falar sobre tudo que envolve qualidade de vida. Nos últimos episódios nós recebemos convidados especiais, o último mais especificamente foi sobre medicina física, fisiatria. Antes também nós conversamos, recebemos aqui uma outra convidada para falar sobre o tratamento estético de varizes e microvasos em pacientes com lipedema. Hoje novamente nós recebemos uma convidada especial, a doutora Priscila Beatriz, que é mastologista e também ginecologista, para falar sobre o tema que vocês tanto pedem aqui para a gente, que é câncer de mama. A gente já conversou outras vezes aqui também no Amatocast sobre isso, mas hoje de uma forma diferente. Então antes de dar as boas-vindas aqui novamente para a doutora Priscila Beatriz, eu vou apresentar um pouquinho do currículo dela para quem está chegando agora, ainda não conhece a doutora Priscila, para poder conhecê-la melhor. Então vamos lá. A doutora Priscila Beatriz Silvério é médica ginecologista e mastologista formada pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo. A UNIFESP é certificada em reconstrução mamária pela Sociedade Brasileira de Mastologia e tem título de especialista em ginecologia e obstetrícia pela FEBRASGO e também de mastologia pela Sociedade Brasileira de Mastologia. Além disso, também é parceira e atende aqui no Instituto Amato. Mais uma vez, bem-vinda, doutora. Obrigada. Mais uma vez, obrigada pelo convite. É sempre um prazer participar aqui do podcast. Já tenho uma parceria aí com o Amato já de muitos anos. Já conhece também como funciona aqui o Amatocast. A gente estava conversando nos bastidores que acho que essa é a terceira vez, né? É, que eu me lembro é a terceira. Terceira participação. E aí a última inclusive foi de estética íntima, né? Que a gente conversou bastante sobre o assunto. A gente costuma deixar, vou deixar também aqui uma playlist dos outros episódios que você participou, os links, para quem quiser acompanhar. São assuntos bem legais, bem interessantes. Eu lembro que foi um papo super legal. Doutora, agora como que foi também, eu já queria entender um pouquinho mais sobre, acho que é da última vez, a gente não tinha falado sobre isso. Como que foi a escolha da sua especialidade na medicina? Você já queria ser médica antes? Já tinha essa vontade? Já era aquela criança que falava para os pais que queria, que vivia com aquele estetoscópio de brincadeira, de brinquedo? Eu, desde que eu me entendo por gente, eu falava que queria ser médica. Não sei de onde surgiu, não tenho médicos na família. Eu sou a primeira e a única por enquanto. E minha mãe fala que desde pequenininha eu falava que queria ser médica, que queria ser médica. E aí, né, o sonho foi realmente crescendo. E eu lembro quando eu estava ali terminando o ensino fundamental, que antes era até a oitava série na minha época, que eu fui fazer um teste vocacional, porque eu queria fazer medicina, mas eu tinha medo, né, porque, poxa, é difícil e tal. Aí fui fazer o teste e deu medicina mesmo. Aí eu falei, não, é isso mesmo, vamos à luta, né? E aí, né, fiz cursinho e passei na Unifesp, né, era um sonho passar lá na Universidade Federal, tudo. E entrei na faculdade sem ter ideia de que especialidade fazer. Vamos conhecendo, né? E eu pensei de fazer de tudo que você possa imaginar. Na faculdade a gente tem as ligas, que são grupos de estudo pra gente poder ter contato com as especialidades, porque o começo da faculdade a gente não tem contato com especialidades, são as matérias básicas, né? E eu fui, eu fiz liga de reumatologia, então, assim, eu pensei em fazer reumatologia, psiquiatria, e uma coisa que eu falava quando eu entrei na faculdade que eu não faria era ginecologia. Falei assim, ah, não, ginecologia eu não quero fazer. Ah, tinha nojo, essas coisas. Mas aí, quando eu comecei a ter contato com a especialidade, eu gostei. E até o final do, assim, a gente presta a prova de residência quando termina a faculdade, mas tem que fazer a inscrição no final do sexto ano. E até o final, eu não sabia o que eu ia prestar. Eu tava em, eu queria alguma especialidade que fosse clínico-cirúrgica, então, que eu pudesse atender pacientes, mas também operar. E eu fiquei entre ginecologia obstetrícia, considerei uma época otorrino, mas aí logo descartei. E dermato, que todo mundo fala também, que faz um pouco dos dois, né? Nunca pensei. Não, e é interessante, né? Porque muita mulher, né, quer fazer dermato, mas, assim, nunca pensei em fazer dermato. Porque, assim, a dermato que a gente vê na faculdade é dermato patológica, né? É doença de pele, não é? As estéticas, os tratamentos estéticos. Então, dermato nunca esteve na minha lista. Mas cirurgia plástica, sim. Então, até o finalzinho, eu fiquei entre prestar cirurgia geral, pra depois fazer plástica, ou fazer ginecologia obstetrícia. E aí, no fim das contas, resolvi fazer ginecologia obstetrícia já pensando em fazer mastologia. Então, fui, prestei a prova, aí fiz, são três anos de ginecologia obstetrícia, e aí, ao final dos três anos, prestei outra prova de residência, né? Porque a mastologia é uma outra especialidade. E aí, pra você fazer mastologia, tem que ou ter feito cirurgia geral ou ginecologia obstetrícia. Aí, prestei a prova e fui fazer mastologia. E foi assim. E aí, assim, né, a gente vai mudando, né? Sabe aquela história que fala assim, ah, médico não para de estudar nunca? É verdade. Então, assim, se você pensa em fazer medicina, é verdade. A gente não para de estudar. Porque a gente tá sempre querendo aprender uma coisa nova, e mesmo, às vezes, chega um paciente com uma queixa que você não se lembra, faz tempo que não vê, você vai estudar. E aí, fui fazer mastologia, porque era uma especialidade que eu sabia que eu poderia trabalhar fazendo ultrassom, fazendo biópsia, fazendo cirurgia. E uma época da minha vida, eu até pensei que eu seria só mastologista, não ia mais fazer ginecologia obstetrícia. Mas, assim, fui mudando também sobre isso. E hoje, assim, eu gosto muito de ser as duas coisas. Não sou mais obstetra. Então, já fiz muitos partos na vida, mas não faço mais. Então, hoje eu atuo mesmo com ginecologia e com mastologia. Faço cirurgias de mama, câncer de mama, reconstrução de mama, que foi uma outra coisa que eu fui estudar depois. Faço a parte de estética ginecológica, estética íntima. Então, esse é um resumo aí da minha trajetória, né? E legal que mudou da água para o vinho, né? Que você falou que não tinha tanto interesse, assim, na verdade, não tinha nenhum interesse em ginecologia na faculdade, e depois acabou escolhendo para seguir a vida. Se hoje não fosse para ser ginecologista, nem mastologista, tivesse que escolher uma outra agora, qual que você escolheria? Ah, dermatologia. É? Dermatologia ou cirurgia plástica. Eu gosto muito de cirurgia plástica também, assim. Era uma coisa que eu tinha vontade de fazer. E até eu falo, né? Esse fato de eu ter ido navegar por essas águas agora, de mexer um pouco com essa parte da estética íntima, acho que tem um pouco a ver com essa minha... Não desejo, mas de gostar dessa parte também da estética, né? Então, e aí eu fui agregando, assim, todos esses conhecimentos. Pegando um pouco de cada... Um pouco de cada coisa, né? E, assim, a ginecologia é uma especialidade que a gente acaba sendo clínica geral da paciente. Então, assim, eu já atendo consultório há 11 anos, e eu tenho pacientes que estão comigo há 11 anos. Então, eu fui acompanhando a trajetória dela, né? Tenho pacientes que começaram comigo, estavam ali tendo filho, e hoje já estão na transição menopausal. Então, a gente vai acompanhando ao longo da vida, né? Acontece aquilo, às vezes, com envelhecimento, de levar a própria filha da paciente que teve, vai levar a filha dela pra você, pra passar na sua consulta, né? Tem isso também. É muito louco. E, doutora, hoje a sua rotina, então, é mais em consultório? Sim, mais consultório. Eu ainda atendo em um hospital, onde eu faço as cirurgias de mamo, mas a maior parte do meu tempo é mesmo consultório. Ah, tá. Entendi, legal. Então, antes da gente começar, na verdade, eu vou falar isso no final, porque eu precisava citar aqui e agradecer o nosso patrocinador, mas já vamos direto pro nosso tema, porque eu tenho um assunto muito legal. Eu tinha visto um vídeo na internet, o pessoal já tá vendo aí no título, a gente vai falar de câncer de mama, um assunto que a gente já trouxe aqui algumas vezes também, em outras abordagens no MotoCast, mas acho que hoje é importante a gente citar sobre algo que tem repercutido também na internet. Um vídeo que eu vi esses últimos dias fala sobre fatores que causam o câncer. Muitas pessoas que estão acompanhando o vídeo, ou às vezes tem alguém na família que tem o câncer, ou às vezes a própria pessoa recebeu o diagnóstico, tem o câncer, enfim, por algum motivo tá aqui assistindo e tem essa curiosidade de saber o que causa, o que é verdade, o que é mentira, sobre esse assunto tão sério, que preocupa tanta gente, mesmo as pessoas que não têm, famílias que não têm ninguém com câncer, têm essa preocupação de um dia ter, porque acaba virando que você é difícil não conhecer ninguém, que tenha, ou que seja próximo, infelizmente, de alguém que tenha sido diagnosticado. E esse vídeo, doutora, fala sobre fatores mais diferentes que podem causar, como por exemplo, um pico de estresse. Uma mãe que perdeu um filho, teve ali esse estresse muito grande e depois de dois anos teve o diagnóstico de um câncer no útero, por exemplo, que tem uma ligação ali com essa questão do filho. Enfim, o vídeo polêmico fala sobre isso, que o câncer está diretamente relacionado a emoções, enfim, fatores ali da vida da pessoa, e esse câncer vai se manifestar em alguma parte do corpo que seja ligado a esse acontecimento da vida da pessoa. Isso existe? É polêmico. É um tema polêmico. A gente não tem estudo científico que consiga provar isso, essa relação causa e efeito. Tive um desgosto e isso causou o meu câncer. Falando especificamente sobre câncer de mama, antes um pouquinho, o que é o câncer? Câncer é o mesmo nome para milhões de doenças diferentes, mas um câncer, em linhas gerais, é uma proliferação anormal. Então, o nosso corpo está em constante proliferação celular. Então, a gente está fazendo célula o tempo todo. Pode acontecer em algum momento dessa proliferação se tornar anômala. Então, uma célula que se reproduziu e ela está errada, o nosso corpo tem mecanismos para fazer aquela divisão celular parar. Mas a gente pode perder isso ao longo do tempo e essa proliferação continuar. Então, o câncer é um crescimento anormal do corpo. Falando sobre câncer de mama, o câncer de mama é uma doença multifatorial. Então, não existe uma causa. Por exemplo, tem alguns cânceres de pulmão que são a pessoa fuma, aumenta o risco desse câncer de pulmão. O câncer de mama não é assim. Então, a gente tem vários fatores que podem aumentar o risco para câncer de mama. Fatores não modificáveis e fatores modificáveis. Não modificáveis são coisas que são do nosso organismo. Então, por exemplo, a idade com que você começa a menstruar, a idade com que você vai entrar na menopausa, se você tem alguma mutação genética, isso eu não tenho como modificar. E a gente tem os fatores modificáveis, que são os hábitos. Então, alimentação, atividade física. E aí, depois a gente pode esmiuçar isso um pouco mais, mas aonde que entraria o estresse? Pensando que o câncer é uma proliferação anormal de células. Quando a gente tem um pico de estresse, uma tristeza muito grande, a gente acaba tendo uma queda da nossa imunidade. Então, isso, alguém que já teria uma predisposição até câncer, pode fazer com que essas células que poderiam começar a se dividir erroneamente, elas consigam fazer isso. Então, pode ter relação, sim, pensando nisso, numa queda de imunidade, e aí o nosso corpo perde esses mecanismos de evitar que essas células anômalas se reproduzam. Mas assim, isso, ok, mas porque foi o filho que morreu, vai ter câncer no útero? Ou porque, sei lá, o marido que fumava morreu, vai ter câncer no pulmão? Isso aí, assim, não vejo evidência científica, e eu já acho que é mais viajante, assim. Mas eu preciso ver esse vídeo, eu não vi. Eu vou te mandar nas redes sociais, porque ele fala de várias coisas. Claro que tem outros fatores que falava ali no vídeo, que já são mais comentados, como, por exemplo, alimentação. Às vezes a pessoa não sabe que tem uma intolerância muito forte. Até falava do glúten nesse vídeo. E aí a pessoa passou a vida inteira consumindo muito glúten e isso poderia dar, isso falava nessa ali, pode ajudar? Sim. Porque são várias coisas. Então, por exemplo, pensando que a pessoa tem uma intolerância ao glúten que ela não sabe. E o glúten, para quem tem intolerância, ele é inflamatório para o organismo. Então, você está vivendo constantemente inflamado. Então, isso poderia contribuir para um câncer? Sim. Mas falar que a causa é só essa, não dá pra gente falar isso. A pessoa pode passar, por exemplo, a vida toda tendo essa predisposição para isso, mas faz o, consome o glúten, mas o todo o restante da vida não leva ao diagnóstico, ao diagnóstico não, né? Ao surgimento do câncer. Sim, porque, por exemplo, hoje mesmo eu atendi uma paciente que ela fez uma, ela tinha uma lesão na mama, a gente operou, era uma lesão suspeita para câncer, fez biópsia, veio o benigno. Fizemos uma cirurgia, tiramos a lesão, veio o benigno, mas veio um benigno que mostra que ela tem um risco um pouco aumentado de câncer de mama. Aí o que eu expliquei para ela, você tem essa lesão, a gente tirou essa lesão, que aumentou um pouquinho o teu risco de câncer de mama. Como que você pode reduzir o teu risco? Com os hábitos. Então, evitando a obesidade, a obesidade é um grande fator de risco para câncer de mama. Então, a obesidade, a gordura periférica, ela é convertida em hormônio. Então, quem evita a obesidade, quem tem uma alimentação rica em legumes, verduras, pobre em alimentos ultraprocessados, em gorduras saturadas, quem tem uma alimentação assim, reduz o seu risco de câncer de mama. Não fumar, reduz o risco de câncer de mama. Não beber bebida alcoólica, reduz o risco de câncer de mama. E todo o contrário, aumenta. Então, beber muito, vai aumentar. Você vai colocando tijolinhos ali no teu risco de câncer de mama. E a ginecologia, no consultório, tem alguns fatores também que podem já servir como um alerta mesmo, que já adianta um diagnóstico, por exemplo. Alguns sintomas, algo que possa ser identificado já, que isso leva a gente acreditar que possa existir um diagnóstico de um câncer mesmo. Mas você dispensando no risco ou algum sinal que eu posso prever de ter um diagnóstico futuro? De já ter o diagnóstico ser confirmado, caso faça um exame, mas no consultório ou em casa mesmo, a pessoa já poder identificar algum sinal, tirando o exame de toque, que é isso que todo mundo conhece, todo mundo comenta. Aliás, acho que é legal também a gente reforçar como funciona, de quanto e quanto tempo deve ser feito, a partir de qual idade. Autoexame? Vamos lá. Autoexame da mama, ele é recomendado como uma forma de autoconhecimento. Não sei se você já reparou que nos últimos anos não tem se falado tanto de autoexame de mama. Você percebeu isso? Isso é proposital. Porque antigamente se falava muito, autoexame, autoexame, autoexame. Isso levava as pessoas a pensarem que se eu faço o meu autoexame e está tudo bem, está tudo certo, eu não preciso fazer nenhum exame a mais. Então, hoje, o que é recomendado? Fazer o autoexame como uma forma de autoconhecimento. Então, eu me examino e sei como minha mama é. Se eventualmente tiver alguma pequena mudança, eu vou perceber. Então, qual que é a recomendação? Que as mulheres façam o autoexame da mama a partir do momento que elas começam a ter mama. Pode ser sei lá, a partir dos 15, 20 anos. Não tem uma regra quando começar, porque não tem uma contraindicação a fazer. Fazer isso após a menstruação. Então, por exemplo, combina assim, cinco dias depois da menstruação, todo mês eu vou fazer o autoexame. Por que não fazer antes da menstruação? Porque no período pré-menstrual, a gente tem um predomínio do hormônio progesterona. E isso faz com que a nossa mama fique mais inchada, às vezes até com formação de pseudonódulos, que são nódulos que não são nódulos verdadeiros. Então, mama mais dolorosa. Então, examinar perto da menstruação não é uma boa. Então, é melhor ser após a menstruação. Para quem não menstrua, está menopausada ou usa algum contraceptivo continuamente, marca um dia. Sei lá, todo dia 10 eu vou me examinar. E como fazer isso? Pode ser em pé, pode ser deitada, coloca uma mão atrás da cabeça e vem com a outra. Eu ensino a dedilhar. Viro com a mão, da periferia pro centro da mama, faz na volta toda da mama, examina a axila também, examinar mais profundo, que as línguas, os linfonodos podem entrar mais profundamente. E do outro lado a mesma coisa. Ah, e antes de palpar, observar, né? O bom é olhar no espelho, olha, põe o braço pra cima, vê se nesse movimento tem alguma deformidade na mama, se a pele está igual dos dois lados. Então, o exame primeiro começa com a inspeção, que a gente olhar, e depois a palpação. Tá. Legal. E agora, sinal de alerta. Isso não de algo que a pessoa possa vir a ter, né? De já, no caso de uma paciente que já tenha câncer, não descobriu que tem câncer, existe algum sinal além desse, do exame, do autoexame, que pode levar um alerta. Um alerta. Bom, assim, sinais e sintomas de câncer de mama, né? Nódulo palpável, então assim, palpou um nódulo, tá diferente? Procura o mastologista, tá? Lembrando que a maior, a maior parte dos nódulos não é câncer, mas se palpou um nódulo, nódulo mais endurecido, pouco móvel, é um nódulo que é mais suspeito pra câncer. Alteração de pele, então, que nem eu falei, que a inspeção faz parte do autoexame, né? Então, às vezes, um lado tá afundado de uma mama, ou a pele tá rugosa, com aspecto de casca de laranja, isso pode ser um sinal de câncer de mama. Um mamilo que inverteu, então, sempre teve os dois mamilos invertidos, e do nada, um só ficou pra dentro. Isso pode ser um sinal de câncer de mama. Saída de líquido pelo mamilo, o tipo de líquido que preocupa a gente, é o líquido que sai espontaneamente, cor de sangue ou transparente, tá? Então, são essas os sinais e sintomas que chamam mais atenção, assim, que é importante procurar o mastologista. E como que é pra você, doutora, lidar diretamente, tendo que dar às vezes esse diagnóstico, né, pra algumas mulheres? Eu imagino que, claro, que a gente tá falando que o câncer de qualquer lugar, qualquer parte do corpo que a pessoa receba esse diagnóstico, tem uma preocupação muito grande sobre como que vai ser o processo, como que vai ser a nova vida da pessoa, né, o que que ela vai ter que fazer, o que que... é algo muito novo, né, pra quem realmente nunca teve, enfim, é um desespero mesmo, ali, às vezes, no início. Mas, pras mulheres, câncer de mama também envolve uma parte estética, né, do... as mulheres são vaidosas, envolve diretamente a autoestima dessas mulheres. Como que, pra você, como que funciona essa conversa? Como que você se preparou pra isso? Porque agora já tem anos de profissão, né, mas no início era difícil pra você lidar com isso? Sim, assim, eu acho que ser médico como um todo é bem desafiador, né, pensando nessa questão psicológica do envolver-se com o paciente, né, então, a gente vai aprendendo ao longo da vida, né, eu fui aprendendo ao longo da minha carreira a ter empatia, então, me entregar ali pra minha paciente, né, acolhê-la, né, realmente, essa hora de dar um diagnóstico de câncer de mama é muito difícil, então, estar ali pela minha paciente, mas não carregar isso pra minha casa, porque também, se eu ficar indo pra casa e pensando no problema de cada paciente, isso é ruim pra mim também, né, então, eu acho que é a arte de acolher, mas de não carregar isso pra dentro de mim, e assim, como fazer essa comunicação, desse diagnóstico, isso varia de paciente pra paciente, porque eu tenho que sentir como a paciente está esperando aquilo, né, então, geralmente, quando a paciente chega com o resultado de biópsia pra mim, eu pergunto o que a senhora espera que veio desse resultado? Tem umas que falam assim, ah, doutora, eu acho que é alguma coisa, tem paciente que já está esperando, tem outras que elas estão em completa negação, então, eu tenho que saber o jeito de passar esse diagnóstico, e o jeito de explicar os tratamentos, então, o que eu gosto de frisar muito pras minhas pacientes é que, assim, câncer de mama, primeiro, que câncer é um nome pra milhares de doenças diferentes, então, ter um diagnóstico de câncer não é um diagnóstico de morte, câncer de mama é uma das doenças mais estudadas do mundo, porque é o câncer que mais dá em mulher, então, é uma doença que ela é curável, e mesmo em casos que não são curáveis, a gente tem controle, então, a gente tem casos de câncer de mama, que às vezes tem metástase, né, já ter doença em outros órgãos, que as mulheres vivem muitos anos, elas vivem como uma doença crônica, quem tem pressão alta, diabetes, não tem cura, a pessoa toma um remédio e vai vivendo a vida, então, mesmo pra esses casos de câncer de mama mais avançados, tem uma sobrevida grande, então, o que eu gosto de frisar, não se apegue ao diagnóstico, se apegue que é uma doença tratável e curável, e que é isso que a gente vai perseguir, né, mas é um... não é fácil, mesmo depois de tantos anos... Cada paciente é uma nova paciente. Cada paciente é uma nova paciente, e assim, eu tenho pacientes jovens, né, a gente tem visto cada vez mais mulheres muito jovens terem câncer de mama, então, isso é uma coisa que pra mim é mais difícil quando eu pego mulheres jovens ou da minha idade, né, eu tô com 42, então, assim, eu já tenho muitas pacientes que têm a minha idade, mais ou menos, com câncer de mama. Então, é algo que me toca mais, né, mas é um... é isso, cada paciente é única, né. É uma vida nova ali, né, que você tá tendo que dar essa notícia, é uma vida que vai passar por isso, né, de uma forma diferente, enfim, da pergunta sobre a idade, né, o câncer de mama é a mesma coisa, independente, na verdade, é determinante, né, se a mulher é mais nova, um diagnóstico de câncer de mama pode ser mais agressivo justamente por conta da idade. Sim, o que a gente acaba vendo é isso, mulheres mais jovens acabam tendo tumores mais agressivos, que crescem mais rápido, do que mulheres mais idosas, que acabam tendo, é mais frequente ter tumores que crescem mais devagar. Tanto que, assim, o que eu costumo explicar, né, é muito comum no consultório o paciente chegar com um nódulo BHAD-3, que é um nódulo provavelmente benigno, que a gente acompanha. Então, se paciente jovem com nódulo que parece benigno, eu vou fazer, pedir pra fazer ultrassom em 6 meses. Tá, tudo igual, a gente repete em 6 meses de novo. E aí o que eu gosto de falar é assim, olha, você voltou agora, o nódulo tá igualzinho, tava 6 meses, então isso me deixa muito tranquila, porque se fosse um câncer de mama, numa mulher jovem, ele não ia ficar quietinho. Lembra que eu falei que o câncer é uma proliferação, é alguma coisa que tá crescendo? E pensando numa mulher jovem, um câncer de mama não ia ficar quietinho em 6 meses. Ele muito provavelmente ou teria crescido, ou teria mudado o seu formato. Tá, e em questão de, aí você falou bastante sobre essa parte do tratamento, né, que não precisa desse desespero, porque muitas vezes os cânceres, quando é câncer, né, tirando a parte do nódulo, quando é câncer, pode ser tratável e a vida daquela pessoa, daquela mulher, pode ser até, não sei se normal seria a palavra, mas da forma mais que se aproxima do normal, do que ela tá acostumada. Fatores de risco, quais que são os mais preocupantes pra uma mulher que é diagnosticada com câncer de mama? Olha, tamanho, então, assim, usualmente, tumor maior é um tumor que a gente vai reduzindo a nossa chance de cura, né, então eu quero diagnosticar tumores bem pequenininhos, tumores menores que dois centímetros, que não sejam palpáveis, quanto menor ele for, maiores as chances dele ter cura. O tamanho influencia na gramática. O fato dele ter ido pra outro lugar ou não, né, então quando eu tenho um tumor que tá só na mama, é melhor do que o tumor que foi pra axila, que tem alguma coisa na axila. Um tumor que tem metástase, que tá em outro órgão, já é um tumor que é mais avançado. Então, o tamanho, o quanto que é, se ele foi pra outro lugar ou não, o tipo, então quando a gente faz a biópsia, a gente faz lá a biópsia, pede uma coisa chamada anátomo patológico, que é o nome do tumor, então carcinoma mamaria invasiva. E a gente pede uma outra análise que se chama imuno-istoquímica, que são alguns marcadores que vão me mostrar melhor as características daquele tumor. Eu falo pras pacientes que é como se fosse o sobrenome do tumor. Então a gente pede receptor hormonal, a gente pede um outro marcador que se chama KI-67, que é uma porcentagem, ele vai me mostrar qual é o grau de proliferação daquele tumor. Então, um tumor que tem um grau de proliferação mais baixo, ele é melhor do que um que tem um grau de proliferação mais alto. Tem um outro marcador chamado HER2, que a gente olha, se ele dá negativo, é melhor do que ele dar positivo. Porém, hoje em dia, a gente tem um tratamento que é uma terapia-alvo que a gente fala. Então, o tumor que tem esse receptor que chama HER2, eu tenho uma medicação que encaixa no receptor e trata isso. Então, isso mudou o prognóstico da mulher que tem um tumor HER2. Então, a gente tem todas essas coisas que vão influenciar se é um tumor mais ou menos agressivo, se tem maior ou menor chance de cura. E anticoncepcional, de fato, é um fator que pode aumentar ali a probabilidade daquela mulher desenvolver um câncer? Sim. O uso de anticoncepcional por tempo prolongado maior do que 10 anos, ele aumenta um pouco o risco de câncer de mama, tá? Mais ou menos 20%. Então, não é que a mulher tem 20% de chance. Do risco basal dela, aumenta em mais 20%. Então, é um aumento pequeno por tempo prolongado. E que esse risco cai de novo quando eu retiro. Então, se ela tomou anticoncepcional 15 anos, ela aumentou um pouco o risco dela. Eu tirei o anticoncepcional, o risco dela vai caindo de novo e volta ao risco basal dela. Ah, entendi. Então, não é algo ali que fica marcado pra vida. Não. Tá. E no caso da paciente, tem uma outra doença junto com o diagnóstico, e aí acontece o diagnóstico do câncer de mama. Isso faz com que o tratamento seja mais difícil nos entidades? Ah, ela tem uma diabetes. E aí, teve o diagnóstico de câncer de mama. As duas doenças juntas, são mais perigosas? Não. Isso não. O que acontece é a mulher que tem alguma outra doença em conjunto, por exemplo, tem uma diabetes, tem uma hipertensão, tem alguma doença que cai a imunidade. Elas, às vezes, podem ter mais efeitos colaterais durante o tratamento. Então, por exemplo, quando a gente faz a quimioterapia, que é um dos tratamentos pra câncer de mama, a quimioterapia, ela reduz a imunidade. Então, às vezes, pode quem tem a diabetes, descontrolar a diabetes. Então, às vezes, a gente precisa espaçar um pouco mais entre uma sessão e outra. Então, às vezes, essas pacientes que têm já outras comorbidades, a gente precisa ter um acompanhamento um pouquinho mais de perto. E ter ali o endócrino trabalhando junto com a gente. Acaba sendo também num diagnóstico, a gente está falando bastante especificamente do câncer de mama, mas cânceres de forma geral. Uma equipe multidisciplinar que vai agir naquela paciente pra que o bem-estar mesmo seja maior da paciente que recebeu esse diagnóstico. Teve uma pergunta também que veio na minha cabeça, que a gente estava falando sobre como é pra você falar sobre isso, ver essa notícia no exame e passar pra paciente. Além do auto-exame e dos alertas no consultório, o diagnóstico é confirmado com ultrassom? O que mais? O que pode... O que confirma o diagnóstico é a biópsia. Então, assim, às vezes tem paciente que chega com o exame e fala assim, eu fiz esse exame aqui e deu que é câncer. Exame de imagem não vai me falar que é câncer. Ele vai me falar se é algo suspeito ou não. Então, vamos inventar uma história aqui. Vamos supor, a paciente chegou pra mim no consultório. Oi, doutora, eu vim fazer meus exames de rotina. Aí eu pedi mamografia e ultrassom pra ela. Aí veio uma alteração. Veio um nódulo no ultrassom. Um nódulo Bihades 4. O que é Bihades? Bihades é a classificação dos exames de mama. Então, mamografia, ultrassom, ressonância, qualquer exame desses que a gente fizer, no final vai vir essa classificação. Essa classificação, ela dá pra gente a ideia do risco dos achados daquele exame serem câncer de mama. Então, quando eu falo que o Bihades, ele vai de 0 até 6. Sendo o Bihades 0 um exame inconclusivo, preciso de mais exames pra concluir. Bihades 1 é um exame negativo, sem achados. Bihades 2 é um exame com achados benignos, que não tem risco de câncer de mama. Bihades 3 são achados provavelmente benignos, que tem um risco baixo de câncer de mama, menos que 2%. Então, usualmente o Bihades 3 a gente acompanha. Bihades 4 já são achados suspeitos pra câncer. Então, o risco de câncer do Bihades 4, eu brinco que é um balaio de gato, porque varia de 2 a 95%. Então, quando eu tenho o Bihades 4, usualmente a gente faz biópsia. Bihades 5 são achados muito suspeitos pra câncer de mama, risco de câncer maior que 95%. E Bihades 6 são achados que são câncer de mama. Então, o paciente que já sabe que tem câncer de mama e fez um exame, vem lá dar o Bihades 6. Então, vamos lá. O paciente chegou, doutora, vim fazer o exame de rotina, mamografia, ultrassom, veio lá um nódulo ultrassom. Bihades 4, suspeito pra câncer. Ou, vamos por, Bihades 5, que é muito suspeito. Ainda assim, eu não posso virar pra ele e falar assim, a senhora tem câncer. Não, eu preciso do anátomo patológico, que é a biópsia. Então, ela vai lá, faz a biópsia, pede a biópsia pra ela. Por exemplo, uma cor biópsia, que é uma biópsia com agulha grossa. Então, ela vai no laboratório, eu faço no consultório também, às vezes o paciente chega e fala, você faz? Faço, já. Resolvemos no consultório. O médico acha o nódulo com ultrassom, faz uma anestesia local, um cortezinho, tira uns pedacinhos do nódulo e manda pra análise. E aí, veio lá, câncer de mama. Tá bom, qual que é o tipo? Ah, tem receptor de hormônio, não tem. Vamos por um tumor que tem receptor de hormônio, grau de proliferação baixo, tumor pequenininho, 0,9 centímetros. Qual é a indicação? Cirurgia. Aí a gente vai, agenda a cirurgia pra esse paciente. Operou, tudo que a gente opera, a gente tira, vai pra biópsia de novo. Aí vem lá, confirmou, olha, era mesmo um tumor de 0,9, é esse tumor mesmo. Aí ela vai ser encaminhada pro oncologista. O oncologista vai avaliar, olha, esse tipo de tumor aqui não precisa fazer quimioterapia. Então, a gente vai fazer a radioterapia e depois vai tomar um antihormônio em casa. Eu falei mil coisas aqui, mas pra resumir, quando eu dou um diagnóstico pra paciente, eu explico, olha, o seu tratamento vai ser multidisciplinar. Então, você vai ter um mastologista que vai te acompanhar, um oncologista, um radioterapeuta. Então, a gente vai trabalhar em conjunto. Então, dependendo se é um tumor pequenininho, às vezes eu já vou e opero o paciente. Se é um tumor já maior, ou é um tumor daqueles que se replica muito rápido, às vezes a gente vai começar o tratamento pela quimioterapia. Reduz o tamanho do tumor pra depois operar. Então, são várias as modalidades de tratamento pro câncer de humano. É cirurgia, quimioterapia, radioterapia, hormonioterapia, terapia-salvo, imunoterapia. Então, são várias modalidades. Nem todas as pacientes vão fazer todas elas, mas aí a gente vai, dependendo ali, qual o tumor, qual é o tipo, a gente vai vendo quais tratamentos e a ordem, que a ordem pode variar também. E às vezes, muitas das dúvidas também giram em torno de como funciona esse processo no sentido de dor. Lá atrás, quando você falou do primeiro passo ali, da mamografia, por exemplo, já existe esse, não sei se mito, mas eu ainda nunca fiz, mas pela questão da dor. Muitas mulheres que falam que morrem de medo de fazer a mamografia já pensando na dor. E depois, continuando o processo, se de fato tem alguma suspeita, às vezes até o diagnóstico confirmado, imagino que muito gira em torno também do medo, da expectativa das pacientes sobre como isso funciona. Então, agora minha pergunta é disso, a mamografia, de fato, como que funciona ali, as mulheres que já estão há muito tempo sem fazer, quais são as dicas e quando precisa de fato de uma biópsia, por exemplo, o que realmente precisa ser, quais são as expectativas mais realistas desse momento? Bom, mamografia, você falou que você nunca fez. O que eu falo para as minhas pacientes que vão fazer mamografia a primeira vez? Falo assim, olha, vai comprimir tua mama. Tá? Ah, é legal? Não, legal é tomar sol na praia, né? Mas assim, eu falo vá de mente aberta. Não vá, porque assim, às vezes a tua mãe fala, nossa, dói muito, a tua tia fala, a tua vizinha, e aí você chega lá e é tranquilo pra você. Então, assim, comprimir a mama é um pouquinho incômodo, eu já fiz, não achei que foi uma dor absurda, é muito rápido, porque você vai lá, aperta assim, aperta assim, acabou. São segundos. Então, é bem rápido. Não é porque a tua mãe, a tua vizinha sentiram dor que você vai sentir, porque a percepção de dor é variável. Então, primeiro, vá sem preconceitos. Esses dias mesmo eu atendi uma paciente que ela falou assim, nossa, doutora, estreia na mamografia. Falei, e aí, como é que foi? Ah, eu achei tranquilo. Minha mãe falava tanto que doía e eu achei tranquilo pra mim. Então, vai variar. Evita marcar perto da menstruação. Lembra que eu falei? Não se examina perto da menstruação, que a mama fique inchada, dolorida, também não vai fazer um negócio que vai apertar tua mama perto da menstruação. Então, marca pra depois da menstruação. Eu acho que é bem tranquilo, que é suportável. Mamas menores tendem a doer mais, porque tem que puxar mais. Mamas maiores tendem a ser um pouco mais confortável. Biópsia. Qual a expectativa da biópsia? A biópsia é feita com anestesia. Recentemente, em outubro rosa, eu participei de um outro programa que chegou lá uma sobrevivente do câncer de mama e contou que fez uma biópsia sangue e frio, sem anestesia. Eu falei, menina do céu! Que absurdo isso! Pois é, e aí eu falei gente, você que está assistindo isso não é o normal. É pra fazer anestesia. Então, não é pra doer a biópsia. A anestesia incomoda, porque é uma queimação, que nem a anestesia de dentista, mas a biópsia em si não é pra doer. Então, sim. Vão ter algumas coisas que vão ser um pouco chatinhas ao longo do caminho, mas eu acho que é tranquilo. E aí você disse que isso pode ser feito no consultório, desde que o médico já tenha toda a preparação pra isso. A biópsia é feita ambulatorialmente. Então, a pessoa vai lá no laboratório ou no consultório, como eu falei, a preparação é fez ultrassom, faz uma limpeza, anestesia local, um cortezinho pequenininho e vem com a agulha de biópsia, um aparelho que ela é uma agulha que desliza uma na outra e tira alguns pedacinhos. Então, isso dá pra fazer no consultório. Isso tem que ter o preparo. Tem que ter a máquina de ultrassom, tem que ter os aparelhos, o anestésico, mas pode ser feito ou em consultório ou em laboratório. Às vezes tem mulher que pergunta, mas tem que ficar internada? Não, faz e vai pra casa. Dá pra trabalhar depois? Até dá, mas a gente pede pra não fazer esforço, não carregar peso. Então, a gente costuma dar testado, faz a biópsia e fica em casa, pelo menos no dia, às vezes no dia seguinte também pra evitar algum sangramento. Ah, entendi. E agora, o papel da mastologia também, falando um pouco da parte de da reconstrução, como que acontece isso, o processo ali, como a gente citou também, às vezes a preocupação das mulheres, claro, depois do, ah, tá tudo bem, não tem nenhum risco maior, né, sobre a questão estética. Quando que é o melhor momento pra se preocupar, de fato, com isso? O câncer de mama, ele impacta muito nessa questão da identidade feminina, da autoimagem, e assim, hoje a gente, graças a Deus, as mulheres que têm câncer de mama têm direito à reconstrução, tanto da mama doente, quanto da outra mama. Isso tanto pelo SUS, quanto pelos planos de saúde, então isso é um direito. A gente tenta, hoje em dia, associar, já fazer tudo junto. Então, vou precisar fazer uma cirurgia, vai tirar um pedaço, vai fazer uma quadrantectomia, por exemplo, que é tirar um nódulo com um pouquinho de margem, se a gente operar só a mama doente, eu vou causar uma assimetria. Então a gente já tenta operar outra pra deixar as duas semelhantes. Então, quando possível, o momento ideal é na hora que já faz a cirurgia pra tratar o câncer de mama. Tem mulheres que às vezes não dá pra fazer, às vezes é uma doença que é muito avançada, o fato de eu fazer a cirurgia reconstrutiva, acaba prolongando o tempo cirúrgico, então às vezes é uma mulher que tem muitas comorbidades, que nem se falasse diabético, hipertensa, muito idosa, então às vezes, se eu for prolongar muito o tempo cirúrgico, eu falo, não, vamos tratar primeiro o câncer e depois a gente vê a questão da reconstrução. Mas o que a gente tem tentado fazer é já aliar isso e já na hora do tratamento já faz a reconstrução. Isso até é uma maneira de melhorar, como que eu posso explicar assim? Melhorar a percepção desse momento de cirurgia, ao invés de pensar, poxa, é só uma mutilação, eu estou tratando uma doença, eu estou tratando uma doença, mas eu estou fazendo também aquela mamoplastia que eu tinha vontade de fazer. A reconstrução de mama, o objetivo não é puramente estético, então é diferente de fazer uma redução de mama por estético, mas assim, a gente consegue deixar um resultado satisfatório para a paciente, então acho que é uma maneira de reduzir esse sentimento ruim por conta do diagnóstico. É, já é possível aproveitar então ali o momento. Sim, e assim, não só a cirurgia lá na hora, como depois, então assim, às vezes a paciente operou do câncer de mama e aí daqui a dois, três anos deu problema na prótese ou ó, tá, ai doutora, eu achei que está uma diferente da outra, dá pra gente melhorar? Dá, o convênio cobre isso também, mesmo as cirurgias subsequentes que sejam que possa ser necessário fazer. Reconstrução também o convênio costuma cobrir. Sim. Ligada ao câncer de mama. Sim, ligada ao câncer de mama. E até mesmo em casos de lesões benignas, mas que causem deformidade. Então, às vezes a mulher tem um nódulo que é benigno, mas é um nódulo enorme. Eu operei uma paciente recente que ela tinha um nódulo de oito centímetros. Era um nódulo benigno, mas assim, estava deformando a mama dela. E se a gente não fizesse a reconstrução, ia ficar muito diferente uma da outra. A gente solicitou, o convênio autorizou. Geralmente eles tentam não, tentam falar, ah não, não precisa, mas assim, a gente tem documentos ali da ANS que falam que a paciente quem tem câncer e quem tem lesão de mama que cause deformidade tem direito à reconstrução mamária. Então, a gente faz lá os relatórios e a paciente consegue. Faz parte dessa preocupação também, né doutora? Eu imagino a parte da vida sexual dessas pacientes e eu imagino que às vezes até com a médica ou o médico o ginecologista ou a ginecologista tem às vezes um certo bloqueio também de falar sobre isso, né? Tem um certo medo, sei lá, aquele sentimento de bloqueio mesmo pra tocar nesse assunto, mas também é importante falar que influencia durante esse tratamento aí do câncer de mama. Sim, assim, essa fase do tratamento é complicada porque tem essa questão de olha, estou com uma questão na mama, vou operar, não sei como vai ficar. Por conta aí de preocupação com o tratamento, com a doença, muitas vezes a mulher não tem nem vontade de ter relação. Então, isso impacta sim e uma coisa que impacta no pós-tratamento pra câncer de mama é que muitas mulheres vão precisar fazer um bloqueio hormonal. Então, as que têm aí os tumores que têm receptores hormonais, a gente vai usar anti-hormônios. Então, às vezes a mulher jovem, eu vou induzir uma menopausa nessa mulher de 30 e poucos anos pra tratar o câncer de mama. E eu induzindo a menopausa nela, eu vou causar sintomas de menopausa, dentre os quais ressecamento vaginal. Então, isso às vezes pode impactar sim na vida sexual. Então, é uma coisa que a gente tem que estar atento, tanto nós mastologistas como ginecologistas, pra não deixar a mulher só procurar ajuda quando ela já está assim, nossa, está terrível, não tem nem como começar uma relação. Então, é importante a gente já ir pensando nisso pra não deixar deteriorar tanto a situação. Chegar nesse nível, né? Exatamente. E justamente falando nisso de chegar no nível de o que deve ser feito, eu já queria antes da gente ir pra aquele quadro Mitos e Verdades, que esse daí a gente já tinha feito Esse é um clássico. É um clássico, já na nossa última participação já teve. E eu separei temas bem legais aqui, frases bem interessantes, dúvidas comuns, mas também outras mais curiosas. Antes eu queria só te perguntar sobre o que mudou, o que você sente que tem evoluído nessa questão tanto de tratamento como também de prevenção. A gente fala bastante sobre isso, foi um tema que ficou um pouco de lado nessa questão do autoexame ali, a gente já explicou o motivo, você explicou aqui, mas o que mais tem evoluído nessa questão de que tanto as pacientes tenham mais informação sobre isso como na forma de tratamento mesmo, de ser mais moderno, enfim, de ser algo menos invasivo, talvez, não sei se seja essa a palavra na vida dessas pacientes. Acho que uma coisa que teve muita mudança nos últimos anos é a questão de estilo de vida. Falar sobre estilo de vida, principalmente atividade física. Esses dias eu atendi uma paciente, ela falou assim, poxa doutora, agora todo médico que a gente vai fica falando, você está fazendo atividade física? Eu falo assim, é, e vai continuar sendo assim. E eu mesmo, eu mudei muito a minha consulta. Talvez assim, a paciente que passou comigo há dois anos, eu não comentei sobre atividade física com ela. A paciente que passa comigo hoje, eu vou falar sobre atividade física. Perguntar se ela faz, se ela não faz, eu vou estimular ela a fazer. Então, em congressos a gente tem tido aulas falando sobre isso, os benefícios de se fazer atividade física, no sentido da gente reduzir risco de câncer de mama, reduzir risco de recidiva, então na mulher que já teve câncer, se eu fizer com que ela faça atividade física, ela evite a obesidade, eu reduzo a chance do câncer voltar nela. Então, o quanto que a gente tem cada vez falado mais, e as pessoas têm se conscientizado que atividade física não é escolha, ela tem que fazer parte do nosso dia a dia. Assim como a gente toma banho, escova o dente, come, a gente tem que fazer atividade física. Então, isso é uma coisa importante. Em relação ao tratamento, a gente tem cada vez mais tido tratamentos bem direcionados, então as imunoterapias, eu vejo se aquela paciente tem esse receptor aqui, então eu posso fazer um tratamento contra esse receptor. Essas terapias-alvo têm sido cada vez mais, têm evoluído cada vez mais, a paciente tem uma mutação do BRCA1, então eu posso usar essa medicação, porque vai dar certo pra ela, melhor do que pra quem não tem mutação. Então, a gente tem cada vez mais direcionado o tratamento para aquela paciente. Uma outra coisa que tem evoluído, mas isso ainda é em terreno de estudo, mas que eu acho que é o futuro, é realmente reduzir as cirurgias. Então, tratamentos como a crioablação, que é congelar a área tumoral, ao invés de eu fazer uma cirurgia, eu vou lá com uma sonda e congelo aquilo lá, eu evito que a paciente faça uma cirurgia. A ressecção de tumores por agulhas de biópsia. Então, eu acho que tratamentos cada vez menos invasivos, isso é o futuro. A gente até brinca que no futuro talvez a gente vai perder o nosso emprego de cirurgião, né? Mas isso é um futuro muito longínquo, mas os estudos já estão sendo realizados nesse sentido. Sim, agora, inclusive eu falei que essa era a última pergunta, mas me veio uma que eu preciso fazer. Que é polêmica, inclusive, foi um assunto que a gente conversou aqui com o doutor Alexandre em uma das últimas gravações, até a gente colocou um vídeo de bastidor aqui, que a gente estava nem gravando oficialmente, mas a gente começou a conversar e acabou indo ao ar esse vídeo, que ele achou tão bom, que ele soltou o vídeo aqui e a gente vai deixar o link também. Doutora, você acha que já existe, ou que um dia vá de fato vir à tona a cura para esse tipo de câncer, ou para todos os tipos de câncer? Uma cura para todos? Eu acho que não. Uma cura para todos, não. Porque os mecanismos, eles são diferentes, mesmo dentro, considerando o câncer de mama, é o mesmo nome para muitas doenças diversas. Então, assim, eu acho que uma cura, eu acho que não. Eu acho que o que pode acontecer é a gente conseguir diagnosticar cada vez antes e aí fazer esses tratamentos minimamente invasivos, que aí eu vou causar menos dano, menos efeito colateral para aquelas pacientes, mas assim, a cura para o câncer geral, eu não acredito. O Alexandre acredita? Então, ficou polêmico. A gente falou bastante sobre essa questão, a minha pergunta justamente era, será que para você, então, não existe algo que já tenha sido desenvolvido, por exemplo, que a indústria esteja segurando justamente por conta dos remédios, que eles não querem deixar de vender, algo pensando mais no lucro. Para você, não existe ainda. Você diz já terem descoberto e não divulgarem para continuar ganhando dinheiro com o tratamento? Para você, isso é a teoria da conspiração. Eu nunca tinha parado para pensar nisso, mas eu acho que não, eu não sou muito das teorias da conspiração, não. A gente estava conversando, inclusive, para colocar quatro pessoas aqui, talvez duas desse lado e duas desse, para duas pessoas que acreditam que são fiéis na teoria que, de fato, existe já e que a indústria só não soltou a questão financeira. E duas pessoas que falam que não, que não existe ou que nunca vai existir. Então, aí já fica. Esse episódio eu quero muito participar e fazer, porque vai ser muito legal, de polêmicas. Então, agora vamos finalizar, doutora, com mitos e verdades. Alguns aqui a gente já acabou citando durante a nossa conversa, eu vou falar dos mais interessantes, mas já começo com um muito legal. Só mulheres acima dos 40 anos podem ter câncer de mama? Mito ou verdade? Mito, mito total. A gente tem visto cada vez mais um aumento no câncer de mama em mulheres mais jovens. Você falou, inclusive, que te surpreende, né, das mais novas. Você pega 30 e poucos anos, 20 e poucos. Então, a gente vai precisar mudar a maneira de rastrear, porque hoje a gente recomenda mamografia anual a partir dos 40 anos, pra população geral. E começar antes em mulheres que têm histórico de câncer de mama, em mulheres jovens na família. Então, como que eu vou rastrear essas mulheres mais jovens, né? Então, isso é algo que pode mudar. Essa próxima aqui é uma curiosidade, com certeza vai chamar atenção. Homens também podem ter câncer de mama? Podem. É raro, tá? Então, câncer de mama em homem é 1% de todos os casos de câncer de mama. Então, pra cada 99 mulheres com câncer de mama, tem um homem. É bem raro. A faixa etária é mais avançada em relação a mulher. Então, mulher, pico de incidência, câncer de mama é 53 anos. Homem é 63, é mais acima dos 60. Nódulo palpável, assim, homem não precisa fazer mamografia anual, tá? Mas, perceber um nódulo palpável mais endurecido, principalmente de um lado só, homem de mais idade, acima de 40, é importante procurar um mastologista. Às vezes, eles acabam negligenciando, né? Porque homem, assim, eu estou sendo generalista, mas homens, em regras gerais, eles só vão ao médico quando não. Tá morrendo, né? Entre a vida e a morte. Sim. O autoexame substitui a mamografia? Não. Não, isso aí é como eu falei lá anteriormente. Por isso que deixaram de falar tanto? Isso, assim, a mamografia, ela ainda é o exame, é o único exame que a gente tem em estudo científico que comprova que reduz mortalidade para câncer de mama, tá? Em cerca de 30%. Porque com a mamografia, eu identifico lesões antes delas serem clinicamente palpáveis. Quando eu palpo um nódulo, quer dizer que ele já tem mais de um centímetro, um e meio, e na mamografia eu consigo ver lesões de milímetros. Então, não substitui. O fato de você não ter algo palpável é legal, mas se você tem mais de 40 anos, você precisa fazer a mamografia anualmente. Certo. Quem não tem histórico familiar não corre risco? Também é outro mito clássico. Somente 10 a 15% dos cânceres de mama estão relacionados à mutação genética. Ou seja, 85% é, eu brinco, que é o raio que caiu, é alguém que foi sorteado ali. Esse daqui também é um que chama muita atenção. De curiosidade mesmo. O suti apertado pode causar câncer de mama? Também é mito. Pelo amor de Deus, nesse daí eu fiquei com medo. Não, é que tinha, assim, umas teorias que o suti apertado poderia pressionar os vasos linfáticos, mas assim... É um mito. Amamentar reduz o risco de câncer de mama? Esse é verdade. Não só amamentar, na verdade, ter uma gestação que chegue até o final é fator protetor para câncer de mama. Que legal. Porque a nossa mama só termina o seu desenvolvimento quando a gente chega no final de uma gestação. Então, a mama de uma mulher que não teve gravidez, não amamentou, ela é mais imatura do que a mama de uma mulher que teve gravidez. E uma mama mais imatura tem mais chance de ter uma divisão celular do que uma mama madura. Então, essa é verdade. Nossa, essa é uma curiosidade mesmo. Já tem vários cortes aqui. A reposição hormonal na menopausa sempre causa câncer? Inclusive, ontem saiu uma notícia fresquinha que o FDA retirou dos medicamentos, dos hormônios para reposição hormonal a tarja preta. Porque eles tinham tarja preta falando que tinha risco aumentado para câncer de mama. Só que isso aconteceu por quê? Lá em 2002 saiu um estudo chamado WHI. Que era um estudo sobre reposição hormonal que mostrou um aumento de risco de câncer de mama, tanto que o estudo foi interrompido. Só que o estudo era cheio de vieses. O tipo de hormônio usado era muito diferente. Era o hormônio derivado de urina de égua prenha. Hoje em dia, a reposição hormonal que a gente faz é com o hormônio bioidêntico ou isomolecular. Que são hormônios semelhantes aos que a gente produz. Depois que reanalisou, quando saiu esse estudo, foi um escândalo. Todo mundo parou de prescrever, não pode, hormônio da câncer. Só que depois, quando reavaliou, se viu que ele estava cheio de vieses, viu que a reposição hormonal até protegia do câncer de mama. Então, hoje, a gente tem visto um movimento de desconstrução disso, de que o hormônio é ruim. A reposição hormonal protege a mulher contra uma série de coisas. Protege massa neuronal, protege osso, protege músculo, reduz risco cardiovascular. Então, pensando em câncer de mama, isso é mito. Tá certo. Doutora, muito obrigada pela sua participação aqui no Amatocast mais uma vez. Como sempre, foi um papo muito interessante. Eu já vou deixar o espaço aberto, porque sempre acaba surgindo uma dúvida ou outra. O tempo passa muito rápido. A gente não consegue falar tudo que a gente poderia, mas a gente trouxe aqui os principais tópicos. Então, vou deixar o espaço para o pessoal comentar aqui no nosso vídeo, para que a gente traga de novo você para falar sobre ou massologia ou ginecologia. Mas também vou deixar o espaço para você passar suas redes sociais ou algum site que você prefira para quem queira marcar uma consulta ou enfim, te procurar para acompanhar suas postagens ou tirar uma dúvida mesmo sobre algum assunto que a gente trouxe. Pode falar, qual que é? O meu Instagram é o arroba doutorapriscilabeatriz, tudo junto. Agradeço mais uma vez o convite. É sempre muito gostoso. A gente nem vê a hora passar, a hora que vai falar, você já passou uma hora. Um assunto vai puxando o outro. Eu acho que é sempre importante a gente falar sobre câncer de mama. É o câncer que mais dá em mulheres. É uma doença que é curável. Quanto antes a gente fizer o diagnóstico, maiores são as chances de cura. Então, não perca a oportunidade de fazer um diagnóstico precoce. Não tenha medo de fazer um exame. Tenha medo de ter uma doença crescendo e você não saber que ela existe. Então, você que tem mais de 40 anos, faça a mamografia anual. Perceba alguma coisa diferente nas mamas, procure uma mastologista. Cuidar-se é um ato de amor. Muito obrigada. Mais uma vez, doutora. E até a próxima, que a gente já tem um assunto que a gente já falou para ser de próxima gravação. Obrigada, mais uma vez. Já quero também agradecer aqui o nosso patrocinador da MatoCast. Para quem já acompanha, sabe. Para quem está chegando agora, a gente tem um patrocinador que é do Laboratório Origem, especializado em saúde intestinal, que é onde tudo começa. O foco da Origem é qualidade de vida e prevenção. Obrigada a você que acompanhou aqui até o final. Não deixe de curtir, comentar e compartilhar, que é muito importante para que a gente continue trazendo os nossos especialistas em saúde de forma geral. Muito obrigada e até a próxima. Tchau!