Olá, meu nome é Letícia Miyamoto, está no ar mais um AmatoCast pelo canal do Instituto Amato e agradeço mais uma vez o carinho da sua audiência e participação aqui conosco para falar sobre tudo que envolve qualidade de vida. Nos últimos episódios, nós recebemos convidados especiais, falamos sobre cuidados com a tireoide e, antes, sobre cálculos renais. Hoje, nós recebemos o doutor Alexandre Amato, cirurgião vascular, para falar de um tema um pouco diferente, já vou falar a sigla aqui, SAM, a gente estava conversando um pouco nos bastidores sobre a Síndrome de Ativação Mastocitária. Para quem não é da área da medicina, é um nome bem diferente, mas a gente já vai explicar o que é, como funciona, diagnóstico, tratamento, tudo sobre a SAM, que para alguns médicos, como para o doutor Alexandre, já é mais do dia a dia dele. Antes de eu dar as boas-vindas aqui novamente para o doutor Alexandre, já vou apresentar um pouquinho mais do currículo dele para quem está chegando agora, para que você possa conhecê-lo melhor. O professor doutor Alexandre Amato é médico e cirurgião vascular e endovascular do Instituto Amato. O especialista é doutor em ciências pela Universidade de São Paulo, atualmente faz pesquisa científica em lipedema e é presidente da Associação Brasileira de Lipedema. Além disso, é autor de diversos livros sobre saúde. Bem-vindo mais uma vez, doutor. Obrigado, Letícia. Obrigado. Vamos falar de mais um assunto que eu adoro. Então, eu estava falando isso no início, né, que é um nome um pouco diferente, para quem não é da área da medicina. Eu, por exemplo, nunca tinha escutado falar, mas a pessoa pode nunca ter visto, pode ter alguma relação aí, né, considerado. Pode falar que é uma doença síndrome, doutor? É a mesma coisa falar síndrome, doença? Síndrome é quando tem vários sintomas associados, vários. E interessante, a síndrome da ativação mastocitata são vários órgãos acometidos também, né. Então, quando tem vários, aí é uma síndrome. Quando é uma coisa só, não, aí seria uma doença. Tá. A sigla também já é um pouquinho mais conhecida, mas ainda assim é um nome diferente, né. Por que que ainda não é tão, é algo novo, assim, para a medicina também? É novo, foi descrito recentemente, não tem muito tempo. Então, tanto que ainda não é todo mundo que acredita na existência e, na verdade, foi a associação de várias teorias e ideias que culminou na síndrome da ativação mastocitata. É o nome que abrange, é o nome guarda-chuva, que pega várias pequenas síndromes embaixo, né. Então, quando a gente fala de síndrome da ativação mastocitata, a gente pode estar falando de uma determinada alteração genética ou outra determinada alteração genética, mas que todas vão culminar com o quê? Com a ativação mastocitata, que a gente vai falar aqui. Pode ficar tranquilo que esse é o assunto legal. E tem bastante gente no seu consultório, que eu falei no início, que alguns médicos, até se tem o seu nome como exemplo, tem uma relação mais próxima com a síndrome. Por que que surgiu? Você escreveu um livro sobre esse tema agora, queria que você contasse um pouquinho. Eu precisei escrever, eu precisei, porque a primeira coisa que passa na cabeça de todo mundo é caramba, o que que um cirurgião vascular está falando dessa síndrome? Não tem nada a ver, não é cirúrgico, mas foi por uma razão muito, muito específica. Eu atendo muito paciente com lipedema. Lipedema, quem abrir o canal vai ver que é o carro-chefe do que eu falo aqui. E por muitos anos eu conseguia resolver a grande maioria dos casos de lipedema, mas tinha uma pequena parcela de pacientes que eu não conseguia resolver, eu não conseguia entender o porquê. E aí eu fui num congresso nos Estados Unidos de lipedema, tem uns oito, sete, oito anos atrás, alguma coisa assim, e eu vi uma aula sobre síndrome da ativação mastocitar e caiu a ficha. Eu falei, caramba, todos esses casos que eu não tô conseguindo resolver é que provavelmente tem associado essa síndrome. Aí eu mergulhei em estudar esse assunto e realmente tem tudo a ver. Quando a gente começa a resolver esses casos de síndrome da ativação mastocitar, o lipedema melhora. Só que não é quem tem lipedema que tem que ter lipedema para ter a síndrome da ativação mastocitar. Todo mundo pode ter, é que quem tem lipedema, essa síndrome pode aparecer como sintomas do lipedema também. Então todo mundo pode carregar essa síndrome, não só mulheres, não só quem tem lipedema. A questão é como que ela vai se apresentar. E esse foi seu último livro, inclusive, né? Meu último livro, acabou de sair, tá aqui, Mastócitos Descontrolados. Acho que vai ficar claro daqui a pouco o porquê do título. E como que foi o preparo desse livro? Eu lembro que no último de lipedema, você falou que estava em dúvida se ia fazer um outro. Já faz um tempo que a gente gravou aquele, né? E aí acabou decidindo fazer esse outro. Eu joguei tudo no lixo, falei, não, deixa eu fazer de novo. Tem que ser disruptivo, não pode ser mais do mesmo, né? Esse aqui eu acho que foi um pouquinho diferente. Esse aqui eu estava buscando como aprender sobre a síndrome da ativação mastocitaria. E aí eu li tudo que tem lá fora. Li todos os artigos, li os livros, encontrei livros bons em inglês e não tem nada em português. Nada, simplesmente zero. Caramba, um assunto tão prevalente e não tem nada em português. O povo precisa saber, as pessoas precisam, os leigos, mas os médicos também. Então, preciso facilitar o acesso à informação. E aí eu aproveitei, uni o útil ao agradável, porque eu ia ter que estudar, porque eu queria estudar e eu gosto de estudar colocando ordem nas coisas que eu vou encontrando, principalmente essas coisas muito bagunçadas, eu vou colocando ordem e fica mais fácil entender. Então, eu lembro, estudar para mim era colocar, fazer resumo, colocar as coisas em ordem. Fiquei mais velho, agora eu coloco em ordem e vira um livro. E esse, inclusive, então é o primeiro livro sobre esse assunto. Primeiro livro sobre esse assunto em português, síndrome da ativação mastocitaria, sim, não tem mais nada sobre isso. Então, e aí eu fiz o livro pensando em todo mundo, tanto o público leigo quanto o médico. Então, a primeira parte fala tudo, da maneira que o leigo consegue entender e as coisas muito mais técnicas e chatas, eu coloco no finalzinho, como anexo. Já está lá no site da Clube de Autores e tem também na Amazon. A gente pode deixar o link aqui, então quem se interessar, no final, a gente agora vai falar o que de fato é a síndrome e aí no final a gente já deixa o link para quem tiver algum interesse. Doutor, então acho que a gente pode começar pelo básico, falando dos mastócitos, que é o título e o nome, tanto do livro quanto do episódio, para os médicos é algo um pouco óbvio, digamos assim, que até eu pesquisando eu vi aqui células de defesa, é o significado, mas para quem não é da área da medicina, eu acho que não tem essa conclusão tão nítida na cabeça, o que são mastócitos, como eles agem, então eu queria essa explicação para começar. Então vamos lá, quando a gente está falando de mastócitos, a gente está falando de sistema de defesa e todo mundo nasce com dois sistemas de defesa, o sistema inato e o sistema adquirido. Sistema inato é aquele que vai funcionar independente de qualquer coisa, ele é meio que genérico, ele funciona para tudo, ele não é extremamente eficaz em resolver todos os problemas, mas ele está lá, é o primeiro guerreiro. Sistema adquirido, todo mundo conhece pelo nome de anticorpo, então leva um tempo para o corpo desenvolver um anticorpo para determinado vírus ou bactéria, então você tem que adquirir essa imunidade. Então é um processo diferente, então a gente está falando do sistema inato, é aquele primeiro, é a primeira linha de defesa. Aí tem várias células que fazem parte desse contexto, cada uma sendo um soldado diferente com uma função diferente. E o mastócito está lá, é uma dessas células e é uma das células mais interessantes, porque ela tem um papel meio que geral, ele faz um pouco de tudo e ele é a primeira linha de defesa, ele é o cara que vai avisar todo o restante de que estamos sendo invadidos, por exemplo, por um fungo, por uma bactéria, por um vírus, qualquer coisa que esteja no lugar errado, ele vai lá e dispara um aviso falando para o resto do corpo, opa, tem alguma coisa errada aqui. Quando uma pessoa fica doente também? Ele foi o primeiro. Seja uma gripe qualquer? O primeiro foi ele, a primeira coisa, quando você entra num quarto com ar condicionado e sente a garganta arranhar, foi ele que deu o primeiro sinal. Então ele é uma célula que tem um monte de vesículas, de bolinhas dentro dela e ela armazena várias substâncias diferentes, tem mais de 200 substâncias diferentes documentadas, mas para fins do que a gente vai fazer aqui, o livro, a principal delas é a histamina. Então a histamina é a substância que vai ligar a nossa inflamação. Então o que acontece? Entrou um vírus, uma bactéria no nosso corpo, o primeiro mastócito que encontra um vírus, uma bactéria, fala opa, tenho que avisar que tem um problema aqui. O que ele faz? Ele degranula, ele abre, solta essa vesícula que tem histamina. E aí a histamina nesse local, o nosso corpo encontra a histamina, fala opa, eu tenho que inflamar. Então porque a inflamação é a nossa primeira reação a qualquer coisa para tentar nos proteger. A inflamação aguda, ela é boa, a inflamação aguda é o que nos protege. Quando a gente faz um corte, a primeira coisa que vai acontecer lá para tentar cicatrizar é essa inflamação. O que não pode é virar uma inflamação crônica, aquela que não desliga nunca. Então o mastócito disparou, liberou histamina, avisou aquela região ali que tem que inflamar. O próximo mastócito que está um pouquinho distante, sente essa histamina, fala opa, acho que tem um problema aqui, tenho que liberar mais e avisar todo mundo. Então vira uma reação em cascata, uma reação em cadeia, vários mastócitos liberando histamina. A gente inflama uma área circunscrita ali daquela região, e aí a inflamação, que é o nosso sistema imune inato, começa a lidar, é a primeira guerra contra o tal do vírus, bactéria ou fungo. Então ele é bom, ele é o cara que está lá avisando todo mundo que a gente tem que ligar nosso sistema imune, a gente tem que ter mastócitos, a gente tem que ter o mastócito funcionando, a gente tem que ter o nosso sistema imune funcionando, porque se não tivesse, a gente ia ter que viver uma bolha, porque a gente não ia lidar com nenhum vírus ou bactéria. Eles iam proliferar, iam dominar o nosso corpo e a gente morria. A questão é, tem gente que nasceu com mastócito, que é um pastor alemão, e aí ele late quando tem que latir, ele late na hora que precisa, e tem gente que nasceu com um mastócito, que é o Lulu da Pomerânia, da minha filha. Foi uma boa comparação. E que late por qualquer coisa. Então, quem tem esse mastócito Lulu da Pomerânia, ele começa a disparar histamina para qualquer sinal. Então, por exemplo, uma mudança de cheiro, uma mudança de clima, eu tenho uma paciente que veio ontem, ela provavelmente vai ver esse episódio, é uma das pacientes mais dedicadas que eu tenho com síndrome da ativação mastocitária, e ela virou e falou assim, sabe uma coisa que dispara? Hoje eu tô um pouquinho pior, porque choveu demais. Então, não era para disparar a liberação de histamina, nosso corpo não precisa de inflamação para lidar com a chuva, para lidar com o ar-condicionado ou para lidar com uma mudança de cheiro quando você entra numa perfumaria, por exemplo. A questão é que se o mastócito libera histamina, nosso corpo não vai pensar duas vezes, ele vai começar a fazer inflamação, e aí começa a ter sintoma. A questão é, o mastócito, ele tá no nosso corpo inteiro, ele tá no nosso cérebro, ele tá nas nossas vias respiratórias, no nosso trato gastrointestinal, ele tá na pele. Então, aonde ele estiver, ele vai causar inflamação daquele órgão. Então, por exemplo, alguém que tem o lulu da pomerânea nervosinho lá, entra numa perfumaria, primeira coisa que vai sentir é o nariz trancar. Caramba, o que aconteceu? Peguei um vírus? Não, é um lulu da pomerânea liberando histamina, porque sentiu um cheiro diferente, e aí isso causou uma inflamação nas vias aéreas. Até aí, tudo bem. Quem tem isso um pouquinho, de vez em quando, ou de vez em nunca, isso não incomoda. O problema é quando o lulu da pomerânea tá lá full time, ligado no turbo e ligando pra qualquer coisa. Exatamente. Então, por exemplo, se você come alguma coisa que não deveria causar uma intolerância ou uma inflamação, mas o seu mastócito entendeu que aquilo é uma agressão pro seu corpo, o que ele vai fazer? Libera histamina lá no intestino. Pra quem tem a síndrome da ativação mastocitária, isso pode virar ou uma diarreia, pode ser um piriri ou um intestino preso, porque a inflamação pode levar aos dois extremos, alteração de hábito intestinal. Mas algumas pessoas podem ter também uma baita de uma enxaqueca, uma dor de cabeça. Outras podem ter uma otite, mas também é muito frequente quem tem uma inflamação da pele. Eu li uma, eu não sei o quanto é verdade isso, porque eu vi de manhã no Instagram, e a gente tem que tomar muito cuidado com as coisas que aparecem no Instagram, mas eu vi uma pessoa, a historinha de uma pessoa que tinha vitíligo e que se separou da mulher e o vitíligo desapareceu. Estavam colocando a culpa na mulher. Provavelmente. Provavelmente o que na relação, eu não sei. Poderia ser estresse pelo relacionamento. Ou algo que a mulher usava. Ou algo que a mulher usava. Tem muita coisa. Como eu disse, eu peguei uma história pela metade e estou tentando extrair alguma coisa dali. Mas com certeza absoluta, estavam envolvidos mastócitos nisso, porque o mastócito liberava histamina, ele causa a inflamação, e depois a inflamação vai desencadear um monte de coisa, inclusive doenças autoimunes. Tá. E doutor, qual que é a diferença, por exemplo, você deu um exemplo muito comum, né, de alguém que entra ali numa perfumaria e o nariz tranca. Isso eu acho que todo mundo que está acompanhando ou já passou por isso pelo menos uma vez, ou conhece alguém que passa. Qual que é a diferença de uma alergia comum ali, algo que não é considerado de fato a síndrome, pra síndrome de fato? Até que ponto, né, uma alergia ali simples, algo pontual, pra ser a síndrome precisa ser algo frequente ou algo que o sintoma é mais forte? O que que diferencia? Então vamos lá, pra falar, uma alergia tem que ser mediado por anticorpo. Então aí a gente entra naquele outro sistema imune que é o adquirido. Então alergia a amendoim, alergia a alguma coisa, você tem que se expor a isso pro corpo entender que é uma agressão, ele vai criar o anticorpo e aí na próxima vez que você se expor a esse produto, aí o corpo produz um monte de anticorpo e aí desencadeia a alergia. A síndrome da ativação mastocitária acontece antes do anticorpo existir, pelo sistema inato. Então, e isso é uma coisa que atrapalha demais, porque são pessoas, por exemplo, que podem disparar, eu tô usando esse exemplo da perfumaria, porque é comum mesmo, mas talvez não seja o melhor de todos, mas a gente continua nesse exemplo e depois passa pra outro. Mas a pessoa entra numa perfumaria e tem a síndrome da ativação mastocitária, libera estamina e inflama tudo. Aí outro dia ela vai e não sente nada. E aí ela fica com uma baita de uma dúvida. Caramba, eu tenho ou não tenho problema com perfumaria? É a mesma coisa com o alimento. Às vezes ela come uma coisa que sente super mal, aí outro dia ela come sem perceber e não sente nada. Então, isso não é mediado anticorpo, porque se fosse mediado anticorpo, sempre iria disparar tudo. Agora, o mastócito, eu gosto dessa ideia do cachorro, ou de algum outro animal, um gato, alguma coisa assim, porque ele fica meio ouriçado, dependendo de algumas situações. Então ele fica mais sensível. Por exemplo, se você tá numa fase muito estressante da sua vida, com um monte de coisa acontecendo, tem que fazer uma viagem longa, alguma coisa assim, isso deixa seu mastócito mais sensível. E aí você precisa de um gatilho menor para disparar a liberação da estamina. Diferente da alergia, que não vai importar se tá ou não estressado. Isso vai acontecer a liberação, a formação dos anticorpos. Tá, entendi. E o sintoma em si, então, não vai ser determinante se esse sintoma vai ser mais forte ou não. Porque pode ser uma alergia comum e o sintoma acabar sendo mais forte do que a da síndrome. Pode. E a síndrome pode ser extremamente grave ou pode ser extremamente fraquinha também. Diferente de gravidez, não existe meio grávida. Ou tá grávida ou não tá grávida, ninguém tem dúvida. Pode perder a gravidez, mas tava grávida, tava. A síndrome da ativação mastocitária tem graus. Então tem aquela levinha, aquela moderada, aquela forte, aquela super forte. Aquela levinha, boa parte da população tem. É que negócio que um dia entrou num quarto com ar-condicionado frio, trancou tudo, liberou a estamina, foi uma reação mastocitária, talvez naquele momento a gente poderia chamar de uma síndrome da ativação mastocitária, mas não é algo que tá incomodando, que tá atrapalhando a vida. Então não tem que fazer nada. Boa parte das pessoas tem um evento, um evento anual, fica um dia de cama, tá tudo bem, toca a vida e não fica nem sabendo. O problema é quando começa a aumentar a gravidade dos sintomas e aí começa a atrapalhar a vida. Ninguém sabe a prevalência da síndrome da ativação mastocitária na população, mas a maior que eu já vi é de 18% da população, 18, imagina. Um em cada cinco, é muita gente. Só que contando os casos leves também. Então não quer dizer que um em cada cinco tá sendo internado por causa disso. Aliás, falando em internado, isso é uma coisa interessante. A maior parte das pessoas que têm síndrome da ativação mastocitária, tem alguns, principalmente dessas que têm um pouquinho mais grave, são pessoas que já foram internadas ou já foram no pronto-socorro com algum sintoma e aí vai lá, roda um monte de exame e não encontra nada, vai embora pra casa sem diagnóstico nenhum. Caramba, o que aconteceu? Será que não pode ser uma inflamação devido a uma síndrome da ativação mastocitária? Porque explicaria isso, né? E aí o conhecimento dessa síndrome dá paz pra essas pessoas, principalmente as que acabam indo parar no pronto-socorro mais frequentemente. Porque fala, puxa, caramba, é só mais uma crise, deixa eu ficar tranquilo, não tô infartando, não tô tendo um AVC, é simplesmente mais uma crise, deixa eu acalmar, tratar isso aqui e fica tudo bem. E quais são os sintomas mais graves, doutor? Pode chegar um paciente morrer mesmo por conta desse, quando tem níveis muito elevados? Aí entra no extremo, né? No extremo da síndrome, aí são pessoas que têm que andar com aquela EpiPen. EpiPen é um problema que não tem no Brasil. E é uma coisa que eu acho que deveria ter aquelas canetas de adrenalina pra quem tem crises muito graves. Tem gente que acaba disparando mastócito, por exemplo, com esporte, com corrida, que é um exemplo, quem corre e aí começa a coçar depois da corrida. Isso é uma liberação da histamina pelos mastócitos, isso entra na classificação da síndrome da ativação mastocitária. Se for só uma coceira na perna, tá aí tudo bem, não vai matar ninguém. Mas se isso é progressivo e vai tendo sintomas mais graves, pode virar até edema de glótia. Então essa é uma pessoa que teria que andar, teoricamente, com uma ampola de adrenalina. Mas como não tem no Brasil, isso não é uma coisa fácil. Eu não sei a solução perfeita pra isso. Eu tenho uma paciente que, aliás, veio essa semana, médica, que tem a ipipen, mas ela trouxe de fora. E aí usa, seria uma emergência, a pessoa usa uma ipipen, seria uma injeção? Uma injeção é igual a essas canetinhas de emagrecimento, só que com adrenalina. Tomando muito cuidado, né, pela história essa semana da adrenalina. Adrenalina mal utilizada é perigoso. Aliás, é por causa disso que não vende no Brasil, porque vai precisar de muita... Pode ser que uma hora comece a vender? Você acha que isso... O problema é do mercado, né. A porcentagem das pessoas que tem que comprar é muito pequenininha. A margem de lucro acaba sendo menor. Qual empresa vai ter o interesse em fazer todo o processo de liberação, pagar por tudo isso, pra depois uma parcela super pequenininha comprar? Se começar a ser mais comum falar mais, pode ser que... Talvez, eu espero. Eu realmente espero. Por um lado eu espero, por outro lado a gente vai criar um outro problema, que é conscientizar as pessoas do uso correto. Mas a evolução é por aí. E doutor, quando a gente fala de sintomas mais comuns, depende, isso é relativo, por exemplo, se for a síndrome, o que estiver causando essa síndrome, se for a questão da perfumaria que a gente está falando, de algum cheiro ou odor específico, ou sei lá, um alimento, isso muda os sintomas? Ah, muda, né. Porque aí é a área do nosso corpo que está se expondo ao agente. Então, se a gente está respirando um cheiro, vai ser trato respiratório. Se a gente está encostando em alguma coisa, pode ser uma dermatite, alguma coisa na pele. Se a gente comeu, vai ser no trato gastrointestinal. Mas o interessante é que a síndrome da ativação mastocitária, um dos critérios pra gente conseguir falar que é isso, tem que ter acometimento de mais de um órgão. Então, se só acontece dermatite, provavelmente não é isso. Tem que estar acontecendo também em outras partes do corpo, mesmo que seja em outro momento, também tem que ter sintoma, se não, não é. Tá. E de alimento também, que eu acho que é muito comum, né, as pessoas podem estar pensando, é muito comum confundir também com intolerância alimentar, né, de um... Ah, nossa, isso aí é uma mistura enorme que as pessoas fazem, né, o que é alergia, o que é intolerância, até porque quando a gente fala em intolerância, aí vai ser o quê? Mediada IgE, mediada IgG, porque eu acho que nem a comunidade científica tá bem, tá na mesma página nesse assunto. Que existe, existe, né, intolerância, alergia e tudo mais, a questão é como que a gente vai classificar cada uma. Por exemplo, na intolerância ao glúten, né, tem vários graus de intolerância ao glúten, tem o grau maior que é a doença celíaca e tem os graus menores, são pessoas que não se sentem tão bem com o glúten, mas toleram, conseguem viver. Cada um vai ter uma tolerância do mastócito ao glúten, então quem é celíaco pode ser menos do que 20 partes por milhão, é menos do que um grãozinho de arroz numa piscina. Quem tem uma tolerância um pouquinho maior, aguentaria um pouquinho mais. Então isso realmente varia de pessoa pra pessoa, eu acho que eu não tenho uma forma fácil de falar se é determinado sintoma é intolerância, se é determinado sintoma é uma alergia, eu não consigo fazer isso. Entendi, a pessoa pode ser intolerante, acho que assim fica mais claro, a pessoa pode ser intolerante e pode não ter a síndrome que a gente está falando, ou pode ter a síndrome e não ser intolerante. Então, de novo, a síndrome, ela precisa cometer mais de um órgão, então ela pode ser intolerante e ter só o estufamento, come e fica estufada. E só isso, mais nada, nunca teve uma enxaqueca, nunca teve uma dermatite, nunca teve nenhum outro sintoma por causa disso. Aí não seria a síndrome? Aí não seria a síndrome, aí é só a intolerância. Só que, aí depende do seu nível de critério, quanto que a gente é rigoroso, porque se eu começo a espremer a pessoa, eu acho um evento de enxaqueca, mesmo que seja menos frequente, a gente acaba encontrando. Difícil, essa pergunta é difícil. É, essa é. Eu acho que já leva também para a minha próxima pergunta, como que funciona o diagnóstico da síndrome? Isso é algo, doutor, só clínico? Você tem um exame específico que pode testar positivo ou negativo para a síndrome? Enfim, como que funciona esse diagnóstico, já que a gente também está falando que até muitos profissionais não falam hoje ainda da síndrome, né? Então, às vezes fica na falta de conhecimento, enfim, para quem está com essa dúvida, como que pode ser feita a confirmação? Pois é, né? Eu gosto dessas coisas mais complicadas, os lipedemas tinham o mesmo problema de não conseguir fazer o diagnóstico. Agora consegue, ficou mais fácil. Acho que quando a gente começa a estudar, começa a divulgar, mais gente interessada, as coisas vão aparecendo. E na síndrome da ativação mastocitara, é mais ou menos isso. Existem exames, só que todos os exames são uma porcaria. Ou são uma porcaria, ou são invasivos demais. Por exemplo, uma das formas de fazer o diagnóstico é, tudo bem, você tem sintoma gastrointestinal, então vamos fazer uma endoscopia ou uma colonoscopia, vamos tirar um pedacinho do tecido que estiver bem vermelhão lá, vamos colocar na lâmina e contar quantos mastócitos tem. E com uma coloração especial, não é qualquer uma, tem que avisar antes, o cara tem que estar preparado para fazer isso. Bom, tem a probabilidade do cara entrar com a colono e com a endoscopia e não achar a área vermelha. Ou o cara pega de uma área que não está tão vermelha assim, porque tinha uma outra que estava mais longe, ele não conseguiu pegar, então ele pegou essa mais perto, aí não tem a quantidade de mastócitos. Aí vai para o laboratório, o cara não tem o corante, que é um corante diferente. Ou ele tem o corante e coloca lá, mas ele não tem muita paciência, porque ele tem que ver um monte de outros casos que são mais fáceis e rápidos. Aí ele faz uma ou duas lâminas, vê lá, não encontra nenhum mastócito, ah, tchau. Só que, na verdade, tinha que ver vários, ele não tem tempo para isso. Então tem muito falso negativo. Você faz o exame, tem todas as características, tem cor de pato, tem pena de pato, tem bico de pato, tem pé de pato, tem tudo de pato, mas eu não consigo o exame falando que é o tal do pato. Então aí ele não dá um laudo positivo e às vezes isso atrapalha, porque muito embora clinicamente o paciente pareça que tem essa síndrome, aí vem com o exame falando que não encontrou, não tem. Aí o paciente vai para casa falando, ah, então eu não tenho síndrome da ativação. Não, não é isso que o exame falou. O exame falou que ele não conseguiu provar que você tem. Mas não que ele provou que você não tem. A ausência da prova não é a prova da ausência. Então esse é o exame invasivo. A gente pode fazer também uma biópsia da medula óssea. Vai lá, faz a biópsia, tira o conteúdo lá, faz, leva para a lâmina. Mesma coisa, extremamente invasivo, doloroso, para depois não encontrar o tal do mastócito e ficar sem o diagnóstico. Por mais que seja um critério reconhecido, eu acho invasivo demais a gente sair fazendo isso. Então vamos falar dos exames não invasivos. Então tem exame de sangue, pode dosar a triptase ou outros marcadores. Como eu disse, dentro do mastócito tem várias substâncias, uma delas é a triptase. A gente pode medir isso. Só que a triptase é fugaz. Na hora que ela é liberada, ela rapidamente desintegra e some. Então você tem uma crise, eu teria que falar assim, você tem a crise agora, você desce, vai no laboratório agora, colhe o exame agora, porque você tem 6 horas ou menos para esse sangue chegar na máquina que faz a medida. Não é chegar no laboratório. Então você tem que chegar antes para tirar o sangue, o cara tem que sair correndo, levar na máquina, porque normalmente essas máquinas não estão em todos os laboratórios, estão em centrais, aí o motoboy tem que pegar, sair correndo, levar. A probabilidade de dar positivo é baixíssima. Então a gente até pede, mas não espera que venha positivo. O dia que vier, a gente vai acreditar, mas eu não posso colocar isso como um critério de positividade. Então a gente acaba usando a anamnese, a conversa clínica e o exame físico. E de novo a gente cai na mesma coisa que caía lá no lipedema. O pessoal não confia no taco, não confia no exame físico, não confia na conversa. Se eu não tenho confiança nisso, é mais fácil eu fingir que não existe. Esse é o problema. É porque eu falando do lado dos pacientes, é muito comum a gente querer ver algo ali escrito, não basta só o método. Mas eu sou cirurgião, eu preciso ver. Quer ver ali o papel escrito positivo, como se fosse um exame de sangue de outro, sei lá, colesterol alto, que aparece ali o número, de tanto a tanto é considerado alto. Então eu falando do lado dos pacientes agora, eu acho que é um pouco disso, da gente estar acostumado desde pequeno a ter algo ali que mostra nitidamente. Então, aí entra aquele negócio que a medicina não é uma ciência exata. O mesmo valor de um exame, pra você pode ser normal, pra mim pode ser alterado. Veja, até a diferença de tamanho, quantidade de ferro pra mim é diferente da quantidade de ferro normal pra você. E se a gente invertesse o número, poderia ser, mesmo que fosse normal pra você, poderia ser alterado pra mim. Então é muito difícil a gente sair taxando regras gerais que funcionam pra todo mundo. Sim, agora tem uma pergunta curiosa que me veio na cabeça. Você falou que alguns dos exemplos ou são muito invasivos, né, dos exemplos que você deu, ou são muito ruins, né, porcaria da palavra que você usou. Você já chegou a receber alguma, isso é uma curiosidade, alguma proposta, sim, sem citar nome, claro, mas alguma proposta pra divulgar nas suas redes sociais ou até pra indicar aos pacientes daqui, tanto pro lipedema como pra síndrome de algo que prometia muito, mas que você percebeu que era picaretagem ali pros pacientes. É comum receber esse tipo de proposta? É muito legal você perguntar isso, que eu até alerto todo mundo. Estão usando a minha imagem pra vender produto por aí. Nossa, é inteligência artificial, né? Acho que eu vi você. Estão fazendo deepfake, né? Deepface. É alguma coisa? É deepface. Deepface ou deepfake? Que eles pegam a sua imagem e posta pela inteligência artificial, né? E me colocaram vendendo o produto. Então, volta e meia, alguém manda mensagem pra mim perguntando se o produto é real ou não. É uma picaretagem sem tamanho, é até grosseiro a forma como eles fazem, mas essa grosseria da forma como eles fazem com a evolução rápida da IA vai sendo refinada com o tempo. Eu tenho medo disso, mas não, não chegam em mim pra vender isso. Acho que eu acabo meio que afastando esse tipo de pessoal de alguma forma. E agora aconteceu, você chegou a conseguir tirar? Já entrou com algum... Falei com a advogada, e aí ela vai atrás do usuário, vai atrás de CNPJ, mas é tudo não existente. É tudo empresa que é fantasma, nome fantasma, na hora que cai um, eles colocam o outro no ar. É impressionante. Que bizarro. E deve ser um susto, né? Você tá ali ou receber de alguém ou tá rodando a internet e fala ué, eu não falei isso? Foi bastante as primeiras vezes. Hoje em dia eu respiro fundo e falo puxa, a gente mora no Brasil e é o que fazem. O que eu posso fazer? O máximo que eu posso fazer é tá aqui alertando vocês que não tem nada de produto que eu esteja vendendo. Você não divulga produto nas redes sociais, eu já cheguei a perceber. Doutor, e agora tratamento, né? A gente falou de diagnóstico, sintomas. Tratamento seria evitar o contato se for um alimento? Evitar o contato com esse alimento? Encontrar seus gatilhos. É. Eu falo que o tratamento é fazer carinho no mastócito. Porque ele fica ouriçado, né? Em situações mais críticas ele vai disparar mais facilmente. Ah, eu tenho uma outra analogia boa. Você é repórter investigativa e com certeza já viu alguém falando do gatilho frouxo. É o cara que ah, não era só encostei o dedo, atirou, sai atirando por nada, né? O mastócito é isso, é um gatilho frouxo. É um gatilho que tem que existir, porque senão não teria inflamação importante pra gente, mas que dispara em situações que não era pra disparar. Então, se a gente encontra esses gatilhos, dá pra ter uma vida muito tranquila e contornar a boa parte dos sintomas da Síndrome da Ativação Mastostária. Não existe um remédio que a pessoa possa tomar? Alguma forma de prevenção nesse sentido que vai parar de ter? Pode continuar tendo contato que não vai ter? Então, tem, tem vários. E essa é a pior notícia que alguém pode ter. Em medicina, se você encontra qualquer coisa que tem vários tratamentos, não é legal. Porque quando tem um tratamento, é porque aquele tratamento funciona e ninguém teve que procurar outro. Quando tem vários tratamentos, é porque nenhum deles é perfeito. Então, aí tem que ficar buscando qual que é o mais adequado. Então, existe a possibilidade ali de tomar algo? Tem vários medicamentos, são estabilizadores de mastócitos, tem até imuro biológicos, formas de inibir o mastócito, tem várias formas de controlar isso. Teria que testar no paciente? Como eu disse lá atrás, o Síndrome da Ativação Mastostária é um nome guarda-chuva para várias pequenas síndromes. Se eu não consigo fazer o diagnóstico do guarda-chuva inteiro, imagina saber cada uma lá embaixo. Cada uma lá embaixo tem um tratamento mais adequado, mas muitas vezes a gente não consegue afunilar a ponto de chegar até ele. Alguns, sim. Alguns são bem típicos, bem fáceis de identificar. Por exemplo, quem tem a intolerância à histamina, que não produza de aminooxidase. São pacientes, por exemplo, que vão ter sintoma quando tomam vinho tinto, mas não vai ter tanto sintoma quando toma vinho branco. São pequenas dicas, assim, que acabam direcionando a gente para um subtipo ou outro. E, doutor, qual é o problema mais grave de ignorar essa síndrome e achar que ali, ah, consigo conviver. A gente até falou uma vez aqui nas suas redes sociais, também você chegou a postar, de quem tem a intolerância a algum tipo de alimento e fala, ah, tudo bem, eu prefiro ter ali uma diarreia, enfim, ficar com a barriga estufada, mas eu não quero deixar de comer aquele alimento, enfim. Existe algo nesse sentido que, a longo prazo, se você ignorar a síndrome... Eu acho que o pior problema da síndrome, da ignorância da síndrome, é o sofrimento, não só físico, mas o sofrimento psicológico. Eu vou explicar o porquê. São pessoas que têm vários sintomas diferentes e ficam pulando de médico em médico, de especialidade em especialidade. Uma hora tá tratando com gastro, outra hora tá tratando com dermatologista, outra hora tá tratando com pneumo e fica pulando de médico em médico, cada hora um médico dá um remédio que é um anti-inflamatório da especialidade dele, aí ele melhora, aí a inflamação aparece de outra forma, ele vai pro outro médico, aí ele melhora, aí ele pula e fica dando volta e não tem fim. E aí são pessoas que se sentem extremamente doentes, são pessoas que sofrem porque, puxa, eu vou no pronto-socorro, ninguém encontra nada, eu tenho isso e o médico não acredita porque quando chega lá não tem mais, eu tenho dor e ninguém acredita que eu tenho dor, e por aí vai. Então, esse sofrimento psicológico de não entender o que tá acontecendo, de ser constantemente abafado à sua opinião, você não tem nada, você é poliqueixoso, você é reclamão ou qualquer coisa assim, na verdade, são queixas reais, só que quando chega no médico, provavelmente já tá diminuindo e não consegue, é quando leva o carro no mecânico e para de fazer o barulho. Então, essas pessoas sofrem muito por causa disso, mas quando tem o conhecimento, se ela sabe que, puxa, é uma crise mastocitária, deixa eu dar um, dois dias aqui e isso vai passar, deixa eu ver como é que fica, fica mais fácil a vida. Então, normalmente, quem tem síndrome da ativação mastocitária tem uma vida tão longeva quanto se não tivesse, não é algo que vai mudar a expectativa de vida, mas muda a qualidade de vida durante esse período em que tá vivo, né, ou sofrendo muito, pensando nisso, achando que é um problemão, ou põe um ponto final nisso, entende, sabe o que tem que fazer, toma a rédea da situação e passa a se controlar, né. Eu acho que esse é um dos aspectos mais significativos. E prevalência, doutor, é mais mulher, mais homem ou não tem regra pra isso? Não tem regra pra isso. E é interessante contar uma coisa que vai entender até porque que não tem uma regra pra isso. Eu gosto de estudar a evolução das doenças. Por que que a síndrome da ativação mastocitária existe? Tem que ter uma razão, porque se ela fosse só ruim, teria sido eliminada da população. Seleção natural, é um troço que faz mal, vamos deixar esses não procriarem, eu digo naturalmente, não seleção natural. E aí vai procriar só quem não tem, mas 18% da população tendo algum grau disso, então calma aí, tem que ter alguma vantagem. Nós somos reflexo de todas as cicatrizes imunológicas de nossos antepassados. Que que eu quero dizer com isso? Lá atrás, não pensa no COVID não, o COVID vai atrapalhar a cabeça de todo mundo, porque tinha médico envolvido, vacina, tem um monte de coisa. Pensa na época da peste negra, peste bulbônica, quem você acha que sobreviveu a essas grandes epidemias? Quem tinha o Lulu da Pomerânia, que latia antes de ter a infecção? Ou quem tinha um pastor alemão cansado e que começava a latir só depois da invasão? Era melhor quem tinha o Lulu. Era melhor quem tinha o Lulu, então isso começou a ser a seleção natural, quem tinha um sistema imune mais ativo sobreviveu mais às grandes epidemias, e foram várias grandes epidemias que foram selecionando as pessoas que realmente tinham esse gatilho frouxo. A questão é, esse gatilho frouxo chegou na gente com alguns sintomas, que é isso. Então, a gente tem que aprender a controlar isso. E, de novo, se era uma coisa que veio dos nossos antepassados, sobreviveram igual, homem e mulher. E desde criança pode ter? Pode ser que seja mais difícil identificar, né? Ah, é bem mais difícil identificar. Talvez a minha dificuldade seja porque eu não seja pediatra, mas eu acho mais difícil. É engraçado que eu sou cirurgião vascular e comecei a atender lipedema, que já não tinha muito a ver com a minha área, e disso eu comecei a estudar um monte de síndrome da ativação mastocitata. E aí a gente vai lá, ajuda a paciente... Onde vai parar isso, doutor, no próximo livro? Aí a gente ajuda a paciente, e aí ela fala, não, você tem que ajudar meu filho. Falo, puxa, não é a minha área, mas eu vou fazer o meu melhor. Eu não tenho medo de estudar, não, mas entenda que eu não sou pediatra. Eu tenho uma certa dificuldade de fazer esse diagnóstico numa criança. Eu não arriscaria. E é mais raro também, né? Imagina os pais procurarem para os filhos, crianças, né? Porque vai naquela linha que a gente estava falando, acha que é outra coisa, né? É, acaba falando que ele é muito doentinho, ele fica resfriado sempre. Caramba, fica resfriado sempre mesmo? As vezes esse ah, ele é muito doentinho, na verdade é o exato oposto. Ele é o que tem muitos sintomas, mas ele é o que fica menos doente. Eu vou tentar explicar isso. Porque, veja, você tem sintomas, o que traz, não é a bactéria que traz sintomas. Se você tiver uma infecção agora, você não vai ter sintoma nenhum. O que vai trazer o sintoma é a inflamação. É a sua reação à bactéria que traz o sintoma. Então, quem vive numa bolha porque não tem um sistema imune funcionante, são as pessoas que não tem febre, não tem nada disso, depois vai ver a bactéria já comeu quase tudo lá. Porque não tem resposta imune. Então, o que a gente sente como, entre aspas, doença, é o sintoma. Ah, eu tenho muita febre. Ah, eu tenho muita dor. Ah, eu tenho muito não sei o quê. Eu fico muito doente. Às vezes é o exato oposto. Essa pessoa é a que tem muita reação imunológica, tem o gatilho frouxo, tá liberando muita estamina, tá inflamando antes, então ele tem bastante sintoma, só que ele não chegou a ter infecção. Ele não tem a doença. São pessoas, por exemplo, ah, eu tenho muita dor de garganta, mas não tenho febre. Opa! Calma aí. Como não tem febre? Alguma coisa tá estranha. Entendi. Não tá de fato ali com aquela doença que seria a infecção na garganta, mas chegou a ter. Só que ela se sente doente. Tá. E doutor, tem cura a síndrome? Cura não, mas tem controle. Tem controle. Na grande maioria dos casos, se não houver controle, há pelo menos uma amenização dos sintomas. Dá pra melhorar. Então esses últimos minutos eu queria já trazer os mitos e verdades, que tem bastante coisa interessante. Acho que a gente comentou quase tudo aqui, mas a gente pode até adaptar pra... Já veio uma pergunta aqui que eu... Sabe uma das razões que eu queria fazer esse episódio? Porque eu tenho um vídeo de dois ou três anos atrás aqui no canal sobre síndrome da ativação mastocitara e que eu fiz despretensiosamente. É um assunto que eu achava interessante, deixa eu falar, ninguém tá falando e continua sendo o único sobre o assunto e as pessoas continuam caindo lá e tá desatualizado. Isso que eu ia te perguntar, se o que você falou naquele vídeo ainda é o que você acredita hoje. Não tá errado, mas tem muito mais coisa. Legal. A gente pode aproveitar e colocar então. Tá ainda no canal? Tá, tá. Tá aqui no canal. Legal. Então agora, mitos e verdades. Doutor, primeiro, SAM é apenas alergia? Não, não é apenas alergia, isso aí é... Que é diferente. Exato. Exames normais descartam a síndrome? Não, nenhum exame normal, por isso são pessoas que vão pro pronto-socorro, fazem uma bateria de exames. Exame normal seria o quê? De SAM? De urina? É, acho que essa pergunta seria uma generalização, né? Mas nem os exames mais aprofundados conseguem, imagina o exame normal. Seria aquele da endoscopia, né? Que tira ali e analisa. O da triptase, são exames difíceis de fazer, que levam tempo. E a endoscopia vai dar análise também, né? De quem que a gente tava comentando, vai dar análise de quem tá fazendo. Depende do patologista, do cara que tá colocando a câmera e a biópsia, depende do tempo também. Nossa, tem tanta variável, operador dependente. SAM pode causar sintomas diferentes em cada pessoa? Essa é a maior característica da SAM, a maior característica. O que pra uma pessoa é uma dermatite, pra outra pessoa é uma enxaqueca, pra outra pessoa parece uma cistite que não para de, não cessa com nada, parece uma, por exemplo, uma candidíase recorrente, parece, pode aparecer de várias formas. Inclusive esses são diferentes os sintomas, né? Candidíase pode ser também ligado a síndrome. Olha que interessante, eu usei a palavra candidíase, mas eu tô errado. Candidíase vem da candida, que é um fungo. O sintoma da candidíase. Eu falei cistite, que seria o correto, mas é que todo mundo conhece como candidíase, eu falei candidíase. É uma doença rara? Não. Então, aí depende, eu vou completar o que eu falei antes, né? Eu dei um número de 18% da população, esse é o maior que eu já vi, mas tem trabalho falando que tem 0,03% da população, então seria ou ultra-raro ou super-frequente. Entendi. Ultra-raro pode ser o mais grávido? Eu colocaria isso como um grau, assim, o ultra-raro é o grave. Quem deveria ter adrenalina. Exato. Estresse emocional, pode desencadear crises? Ah, pode, eu tenho uma paciente que tava super controladinha, brigou com o marido, aquela briga super feia, e assim, até ali tava tudo bem, no dia seguinte foi um gatilho idiota, um gatilho pequeno, eu não lembro o que que era, mas era um gatilho super pequeno, coisa de ar-condicionado. Ela teve uma crise mastostária absurda, foi parar no pronto-socorro, foi pra UTI, ficou dois dias na UTI, rodaram tudo quanto é exame, não encontraram nada, ela foi pra casa sem diagnóstico. Foi da UTI pra casa. Crise mastostária, desencadeado pelo estresse da briga com o marido. Entendi, e aí o estresse foi a única causa ali, não teve nada ou não? É a analogia do copo, né? A gente tem uma capacidade de lidar com a inflamação, todo mundo tem, é um copo. A gente vai colocando a inflamação lá dentro durante o dia, uma hora transborda, tem gente que nasceu com o copo pequeno, tem gente que nasceu com o copo grandão. Quem tem síndrome da ativação mastostária nasceu com o copo pequenininho, tem que colocar menos coisa inflamatória no dia. Então não seria o estresse em si, o estresse causou, é algo que entrou ali no copo, piorou ali. Entendi. Dieta tem impacto direto nos sintomas? Com certeza, só pra complicar mais, nem entrei nesse mérito, mas vou falar, tem alimento que tem estamina, tem alimento que faz a gente produzir estamina, e pior de tudo, é que esses alimentos são saudáveis em geral, assim, quando a gente está falando, vou dar alguns exemplos só pra... Nossa, acho que eu vou atrapalhar todo mundo agora, porque normalmente a gente separa o que é saudável e o que não é saudável, de uma forma super branco no preto, não tem dúvida nenhuma, né? Pois é. E se eu te falar que tomate tem estamina, que berinjela tem estamina, que banana tem estamina, que... E são alimentos que teoricamente são saudáveis, mas pra quem tem um dos subtipos da intolerância à estamina, pode não tolerar esses alimentos. Nossa, é difícil, hein, pra quem tá tentando encontrar um caminho, realmente, essa daí foi pra... Por isso tem o livro! É. Deixa eu ver aqui, eu me perdi aqui. Quem tem SANS sempre tem urticária ou vermelhidão? É super frequente, muito frequente mesmo, é um dos sinais mais comuns, tem um negócio chamado também, é... Nossa, fugiu a palavra, mas que a gente passa o dedo aqui e consegue escrever o nosso nome na dermografia. Dermografia. Aí a gente escreve o nome. Mas urticária é super frequente, não precisa ter, mas é super frequente. SANS é psicológica? De jeito nenhum. Pode dar alguns problemas, né? Mas você sabe que quando eu era estudante de medicina, tinha uma brincadeira, que era o Advanced Life PT Support. Tem o ATLS, tem o BLS, tem todos os sérios, aí tinha o Advanced Life PT Support. Que era um monte de brincadeira com as pessoas que chegam no pronto-socorro, entre aspas, tendo PT. Aí eu lembrei disso, quando eu tava escrevendo o livro e fui procurar e rever. Hoje eu acho que aquelas pessoas que estavam sendo caracterizadas como como pitizentas ou qualquer coisa do poliqueixosas ou qualquer coisa desse tipo, na verdade, deviam estar tendo crise mastostária. Então, olha que absurdo. A gente caracterizava um grupo inteiro. Ah, isso não tem nada, isso aí é besteira sua. Na verdade, tem, é que a gente já era incapaz de identificar ou nomear isso. Agora, esse último é pra fechar com chave de ouro. SAM pode ser confundida com dezenas de outras doenças? Sim. E normalmente essa é a vida de quem tem SAM. Carregam uns dez diagnósticos diferentes. Ah, eu tenho gastrite, dermatite, rimite, sinusite, otite, esofagite e por aí vai. E no final, a pessoa acha que realmente tem tudo isso. Que ela tirou na loteria das doenças. Estava lá no céu, entrou na fila de pegar doença vinte vezes. E na verdade, é uma coisa só que explica tudo. No final, o IT é a inflamação. É um alerta pra aquela famosa hipocondríaca, né, que o pessoal chama da forma mais... Hipocondríaca, óbvio, também existe. O hipocondríaco também existe, mas eu acho que boa parte do que a gente classificava como hipocondríaco deveria ter a síndrome da ativação mastostária. E pra quem quer saber um pouquinho mais então do tema, já vou deixar o link, né, o site aqui, novamente dois sites, né, doutor? Amazon. Amazon e Clube de Autores. Clube de Autores. Pra quem tiver interessado, o livro é grande, olha, levando um pouquinho aqui pra mostrar. O livro é grande, né, tem bastante coisa. Mas tem imagem, tem a parte técnica, tem histórias. E é legal que não é, reforçando, né, não é só pra médico, né, não é pra Arda Saúde. Tanto pra paciente também consegue entender e tem a parte também pra quem quer se aprofundar um pouquinho mais aí no tema, né? Exatamente. Tem um spoiler já de próximo livro, doutor? Nossa, eu tô pensando o que que vai ser meu próximo alvo. Não sabe ainda? Não, tem algumas ideias aqui em mente. Vai deixar pra ano que vem. Ah. 2026 agora. Eu sou um procrastinador hierárquico. Mas foi rápido esse. Eu escrevo um livro quando eu tenho alguma outra coisa super importante pra fazer. Aí você fala, ah, essa vai ser minha prioridade agora. Aí eu mudo a prioridade e sai um livro. Esse daí foi rápido até, né? Da última vez que a gente conversou. Foi. Quanto tempo foi pra escrever esse daí, mais ou menos? Nossa, eu tava bem empolgado, acho que foi um mês e meio, dois meses, pra escrever o núcleo, né? Sim, sim. Depois tem a parte mais lenta, que é fazer imagem, colocar tudo bonitinho. Mas aí tem a equipe, né, que ajuda. A equipe sou eu. Aí coloca os créditos ali, escritor, doutor Alexandre, imagem, doutor Alexandre. Edição. Eu sou meio maníaco de fazer do meu jeito. Da medicina. Nossa, se eu passo pra alguém fazer e depois volta, eu vou refazer, mudar. Vai dar trabalho dobrado, né? Legal, doutor, muito obrigada pela sua participação. Então a gente tá deixando aqui todos os links, né? E pra quem tiver alguma dúvida, suas redes sociais também, né, que você sempre posta bastante coisa, tá sempre dos assuntos mais atualizados. Quer passar o perfil aqui? No Instagram é doutor.alexandreamato Eu me comprometo a fazer um videozinho de cada capítulo nos próximos dias, então quem quiser assistir estarei lá. Combinado, doutor, até a próxima. Vai ter um episódio muito legal inclusive, né, que a gente vai lançar aqui com a doutora Juliana, já dando um spoiler do nosso próximo episódio. Sem falar o título, mas que vai ser muito legal pra essa época, né, de final de ano e começo do ano. Até a próxima, doutor. Obrigada. Até. Também quero aproveitar e fazer um agradecimento aqui pro Laboratório Origem, especializado em saúde intestinal, que é onde tudo começa. O foco da Origem é qualidade de vida e prevenção. Muito obrigada você que acompanhou aqui até o final do nosso episódio. Não deixe de curtir, comentar e compartilhar que é muito importante pra que a gente continue trazendo os nossos especialistas. Obrigada e até a próxima. Tchau. Tchau, tchau.