
Lipedema Talks, episódio 16
Reabilitação no Lipedema: recuperando movimento e qualidade de vida
Neste episódio
A fisioterapeuta Mariana Milazzotto explica que reabilitar a paciente com lipedema é olhar o todo, e não só as pernas. Ela descreve a dor ao toque leve e o peso nas pernas e mostra como o acúmulo de gordura pode alterar a forma de andar, os joelhos e os pés, por isso avalia postura, marcha e biomecânica. O episódio fala de gatilhos inflamatórios, como alguns alimentos e o álcool, de cuidados em casa, como autodrenagem e ativação da panturrilha, e de exercício progressivo e adaptado. Também reforça a paciente como protagonista e o trabalho multidisciplinar.
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Capítulos
Sobre o episódio
Neste episódio do Lipedema Talks, gravado no contexto do congresso Lipedema Evolution 2026, a apresentadora Letícia Miyamoto recebe a fisioterapeuta Mariana Milazzotto para falar sobre reabilitação no lipedema. Mariana mostra por que enxergar a paciente de forma individual e multidisciplinar muda tudo, desde a avaliação postural e biomecânica até o controle da dor, da inflamação e dos gatilhos como glúten, lactose, açúcar, álcool e embutidos. Ela explica como a paciente é protagonista do tratamento, o que fazer em casa (autodrenagem, escovação a seco, bomba muscular da panturrilha) e por que o exercício precisa ser progressivo e adaptado. Também aborda os diagnósticos diferenciais e a importância de não cair em soluções milagrosas. Assista para entender como recuperar movimento e qualidade de vida.
🎙️ Convidado(a): Dra. Mariana Milazzotto — Fisioterapeuta
🎧 Lipedema Talks · Temporada 2 · Episódio 16 de 21 · Apresentação: Letícia Miyamoto
📍 Gravado no congresso Lipedema Evolution 2026 · https://congresso.lipedemaevolution.com.br
Transcrição
Olá, meu nome é Letícia Miyamoto e está no ar mais um episódio do Lipedema Talks. E, mais uma vez, obrigada pela sua audiência e participação aqui com a gente para falar sobre tudo o que envolve qualidade de vida. O nosso tema de hoje é reabilitação no lipedema, recuperando o movimento e qualidade de vida. Já vou apresentar a nossa entrevistada, a nossa convidada especial de hoje, que é a Mariana Vita Milazotto, fisioterapeuta há mais de 20 anos, mestre em Ciências Médicas pela USP, atua no Instituto Amato há 13 anos e trabalha com pacientes com o lipedema desde 2017. Ela já participou aqui com a gente. Bem-vinda novamente. Obrigada, obrigada, Violet. Obrigada pelo convite. A gente já estava falando nos bastidores, inclusive, que outras oportunidades a gente até citou de lipedema, mas acho que hoje vai ser muito legal a gente focar nesse assunto que vai ser a sua palestra.
A gente está falando do futuro porque essa gravação está sendo antes do Congresso, mas dois anos seguidos que a gente consegue falar sobre os temas abordados no Congresso de Lipedema, que está sendo organizado pelo doutor Alexandre e o doutor Daniel. E, antes de tudo, eu queria saber um pouquinho sobre a sua rotina mesmo focada com pacientes de lipedema. Você costuma atender bastante gente que já foi diagnosticado ou que ainda tem dúvida? Como que é o seu dia a dia focado nesse tipo de público, Mari? No geral, as pacientes que têm lipedema, elas chegam para mim já com um diagnóstico. A maioria dos diagnósticos são diagnósticos de vindos de algum médico, mas hoje tem muita paciente que lê no Google, que lê, enfim, qualquer chat, né, inteligência artificial e fala, ah, eu acho que eu tenho, e não necessariamente foi o médico.
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Então, eu recebo tanto pacientes que vêm com diagnóstico indicados pelo médico, quanto pacientes que acham que têm. A minha rotina, no geral, é avaliar paciente como um todo, e eu acho que esse é um grande diferencial porque enxergar a paciente com lipedema não é só enxergar uma deposta normal de gordura nas pernas, é muito mais do que isso. Quando essa paciente não tem um diagnóstico médico, no geral, eu costumo encaminhar, porque eu acho importante esse atendimento multidisciplinar, então não sou eu sozinha que vou resolver o problema da paciente, e quando a paciente já tem o diagnóstico médico, a gente já inicia um programa que eu gosto muito de falar que é de reabilitação. Então, eu vou trazer muito para esse congresso, um pouco diferente do ano passado, o que é realmente reabilitar a paciente.
É olhar a paciente como um todo, não enxergar só as pernas grossas, as pernas com gordura, e trazer para um contexto que para aquela mulher funcione. Então, não adianta eu atender uma paciente, dar uma série de orientações que na rotina dela ela não vai conseguir ser minha. Então, de início, você precisa alinhar a expectativa, então o que a paciente está esperando de você, o que você consegue entregar, e enxergar o todo, enxergar o contexto, e aí a gente diz, contexto até psicológico, social, além de, óbvio, de sintomas dessa paciente, para dar as orientações corretas e realmente trazer essa paciente para o pleno dela, que é reabilitar a qualidade de vida e deixá-la funcional, que muitas delas perdem muitas funções por conta das limitações.
E hoje você tem muito contato com pacientes que tiveram esse diagnóstico ou estão no caminho de ter o diagnóstico, né? Como que surgiu essa ideia de começar a trabalhar com isso? Quando a gente fala de fisioterapia, eu que já tenho mais contato com todo o pessoal aqui da clínica, eu sei que está muito relacionado, mas ainda tem um certo preconceito, às vezes não é nem preconceito a palavra, mas muitas pessoas não sabem, né, que tem uma ligação assim e que precisam desse lado também, não só do médico, ensino e processo. Sim, na verdade assim, como você apresentou, eu tenho aí 20 anos de formação em fisioterapia, mas o lipedema, quando eu me formei, a gente nem ouvia falar dele, não sabia o que era, no máximo a gente conhecia sobre linfedema. E quando eu comecei a trabalhar com o doutor Alexandre, e até pela especialidade dele, boa parte do que ele fazia eu comecei a me interessar.
Mas basicamente teve um momento da vida dele, que foi um momento que ele foi para a Alemanha para entender melhor sobre lipedema, junto até com o doutor Daniel, e quando ele voltou, ele me chamou um dia e falou, ó, lipedema eu aprendi, a gente precisa tratar multidisciplinarmente, eu preciso de uma fisioterapeuta na equipe, você topa? E aí naquele dia, isso deve ter sido 2015, 2016, eu falei, mas eu não sei o que é. Aí ele falou para mim, não, você vai estudar comigo, a gente vai aprender junto, e desse dia em diante, ele foi me mandando artigo, a gente foi discutindo, cada paciente que vinha, porque foi vindo paciente devagar, cada paciente que vinha era um caso novo que a gente discutia, e aí foi uma coisa que aos poucos foi entrando na minha rotina, eu fui estudando, e de lá para cá só foi crescendo o número de pacientes, graças a ele, inclusive, porque ele era a referência que me trazia os pacientes, e aí eu acho que posso considerar que hoje eu posso me dizer uma referência na fisioterapia para atendimento dessas pacientes, mas de início também era para mim uma doença desconhecida, e eu também precisei, talvez ela não tinha esse nome, a gente conhecia de uma outra maneira, mas eu também precisei aprimorar, estudar, imagina, a gente buscava, eu pelo menos na minha área, buscava artigo científico nessa época, 2017, 2018, não tinha, era um, dois,
onde você busca, ainda tem uma escassez de estudos no assunto, mas tem muito mais coisa publicada já, então assim, de 2020, 2021 para cá, aqui houve um boom mesmo das pessoas falando do assunto, das pessoas estudando o assunto, das pessoas publicando sobre o assunto. Legal. Então essa é a trajetória com o lipedema, no início, até na época de faculdade, não era algo nem que passava na sua cabeça, olha como o tema realmente surge e aos poucos vai cada vez sendo mais comentado, até nas redes sociais, a gente falou em alguns episódios, citou sobre isso em alguns episódios, que antes na rede social era praticamente um assunto inexistente, só se você procurava alguma coisa de específico, mas hoje aparece vídeo de influencer fazendo trend com o lipedema, sonor do lipedema.
É, porque na verdade assim, a gente sabe que a porcentagem de mulheres brasileiras que têm algum sintoma é alta, então muitas mulheres algum dia na vida podem apresentar sintomas, mas mais do que isso são as pessoas que estão conectando, que estão buscando as informações, e eu só fico um pouco preocupada nesse sentido, porque também tem muita gente vendendo soluções milagrosas pra esse público que busca uma solução e que procura pela internet, e aí também é uma coisa que a gente precisa tomar cuidado, a gente precisa orientar, educar os pacientes, porque é uma doença que não tem cura, é uma doença que tem tratamento, que tem controle, mas não existe uma solução milagrosa, né?
E quais limitações que você vê assim, que são mais frequentes, mais comuns, e aquelas que são alvos mesmo do tratamento da fisioterapia? Então assim, quando a gente fala nos consensos, né, que tem surgido, esse último consenso que foi publicado agora em janeiro de 2026, começa a falar um pouco de tirar um pouco a dependência de classificação em estágios, então, e pensar um pouco mais nos sintomas que essa mulher apresenta, então pode ser que uma paciente em estágio 1, que esteticamente ela não tenha muitos problemas, ela tenha muito mais dor, por exemplo, do que uma paciente em estágio 3, que tem uma questão estética importante, mas talvez não tenha dor. Então, sem falar em estágios, falando em limitações, dor principalmente, né, a gente precisa tratar sintoma.
O que a fisioterapia vai tratar antes de pensar em estética, por exemplo? É, a dor que essa mulher tem, a dor ao toque leve, é uma dor que caracteriza uma condição inflamatória. Você encosta na perna dela leve, ela sente dor, ela sente dor ao final do dia, ela sente um peso nas pernas, então tratar sintomas é a primeira coisa que a gente trata na fisioterapia. Além disso, essas mulheres têm algumas limitações ortopédicas, então algumas das vezes o acúmulo de gordura no interior dos joelhos, né, no interno de coxas, na parte de dentro do joelho faz com que toda a biomecânica da perna mude. A pessoa muda a maneira que ela anda, e aí ela vai andando com os joelhos pra dentro, que a gente chama de joelho dos valvos, ela desaba o arco do pé, então é o pé plano, é aquele pé que fica sem curvinha.
Tudo isso gera também a dor, então essa dor que essa mulher sente, ela se mistura com uma dor que também vem das articulações, vem dos músculos, toda a musculatura fica mais fraca, ela fica com muito mais dificuldade de ganhar massa muscular do que uma mulher que não tem lipedema. Então quando você fala em tratar limitações, você fala em olhar o todo, por isso que é importante você avaliar individualmente cada paciente, não considerar só o estágio que ela tá da doença, mas considerar tudo que ela tá dizendo pra você que ela tá sentindo e também o que você tá vendo, então avaliação postural, avaliação da marcha, avaliação biomecânica, mesmo que o fisioterapeuta faz, é importante pra gente pensar em planejamento de força, então o que eu vou fortalecer?
Eu preciso tomar cuidado com essa paciente, ela tem alguma hipermobilidade, porque normalmente elas têm uma questão de alteração de colágeno, então elas têm as articulações mais hipermóveis, eu tenho que evitar extremos de amplitude de movimento, por exemplo. Ah, essa paciente tem dor, poxa, por que ela tem dor? Ah, ela tá muito inflamada, ah, então vamos pensar o que a gente vai fazer pra diminuir essa inflamação dos tecidos, como que eu elimino as citoquinas inflamatórias do corpo dessa mulher e principalmente quais as orientações que eu vou dar pra ela, pra ela fazer em casa, porque muito mais do que ela vir comigo uma ou duas vezes por semana, ela entender que ela é protagonista do tratamento, que não adianta ela depositar só em mim ou só no médico ou só no nutricionista se ela não fizer a parte dela.
Por isso que conhecer a paciente, entender qual é a expectativa, é realmente traçar um protocolo individualizado pra aquela mulher. Sim. E Mari, essa parte do que a paciente vai fazer em casa ou até com a fisioterapia, com a nutrição e tudo mais, é capaz de não só deixar de ter uma evolução no tratamento, como piorar as condições que aquela, os sintomas mesmo que aquela mulher tem? Então somos dois lados, tá? Dependendo do que você for fazer da sua vida, ou você consegue controlar a doença e evitar que ela progrida, ou você vai conseguir fazer com que ela piore e tanto os sintomas quanto o aspecto estético piorem.
No geral, o que ela precisa fazer pra evitar a progressão? Se a gente tá falando de uma doença que é inflamatória crônica, a gente precisa primeiro descobrir qual gatilho inflamatório dessa mulher. E aí são muitos os gatilhos, eles podem ser alimentares, eles podem ser privação de sono, eles podem ser excesso de estresse, uma série de gatilhos que pra todo mundo é um gatilho inflamatório, mas pra quem tem epidema, vai ficar ali na perna, vai no sintoma que ela tem. E aí pensando em alimentação, por exemplo, a gente sempre fala dos cinco principais gatilhos, então é o glúten, a lactose, o açúcar, o álcool e os embutidos.
Então a primeira coisa que você conversa com uma paciente, mesmo não sendo nutricionista, é algumas coisas específicas talvez ela precise eliminar da rotina pra que ela impeça a progressão da doença. Quando a gente fala em estresse, aí a gente ensina técnicas de controle do estresse, porque o estresse é o único gatilho que ele não é muito controlável, na verdade, todo mundo estresse, né? Então vamos ensinar técnicas pra controle de estresse. Ah, sono, então vamos ensinar a higiene do sono, precisa dormir, precisa dormir tal hora, sem acesso às telas por tanto tempo, enfim, vamos ensinar, né? Então ela fazendo em casa as orientações, ela vai impedir que a doença progrida. Do contrário, tudo que eu expliquei pra ela que pode estar causando a piora da doença, se ela for fazendo ao longo da vida dela, ela vai ter uma piora considerável, independente dela vir na mara um ou duas vezes por semana, né?
Porque não adianta vir, fazer o que tem que fazer e o resto do tempo todo da sua vida você faz tudo ao contrário, né? Você fica enxugando gelo, você fica só gastando dinheiro enxugando gelo. E a intenção da fisioterapia, pelo menos a minha visão com esse público, não é que a paciente fique dependente de mim pro resto da vida, é que eu consiga resolver o problema dela e ensiná-la a seguir sozinha, né? Então tem esses dois lados. Sim, e você consegue ali no primeiro momento já diferenciar o que tá ligado a uma condição de lipedema, a uma outra condição, acostumar as pacientes, imagino que elas às vezes tentam se autodiagnosticar, né?
Como acontece na parte direta com o médico, deve acontecer também na parte da fisioterapia. Ah, eu faço isso, isso me ajuda, isso melhora. É um desafio, eu tenho lido pra vocês, convencer a paciente do que deve ser feito, super. Imagina, super. Eu acho que esse é o desafio principal, porque mais do que você mostrar pra paciente que o seu trabalho é importante e ela enxergar que o que você tá fazendo com ela, ela tá fazendo bem, é ela entender que o que ela talvez está fazendo ali, que ela me fala que ela tá fazendo, tá errado e que tá piorando a condição dela. E também tem essa questão do diagnóstico diferencial, né? Muitas das vezes não é o lipedema, muitas das vezes essa mulher tem celulite, então ela tem uma questão estética, mas ela não tem nenhuma outra questão que coloca ela no diagnóstico de uma paciente com lipedema.
Então é ajudar ela também a entender, apesar de eu, como fisioterapeuta, não poder diagnosticar, mas a gente, como a gente convive com a doença há muito tempo, a gente sabe o que tá acontecendo. A gente vai dar uma orientação, né? Ou a paciente que tem linfedema, por exemplo, a perna dela tá inchada, mas a condição do linfedema é muito diferente do lipedema. Pra quem é leigo, talvez não, mas pra gente que tá enxergando sim. Então fazer esse tipo de diferenciação de diagnóstico também é orientar a paciente da melhor maneira que ela precisa seguir. Ó, você veio me procurar porque você acha que tem lipedema, porque talvez você tenha lido aqui ou ali, ou a sua amiga da cabeleireira te falou, mas ó, o que você tem talvez não seja lipedema, talvez seja outra coisa, vai pro outro caminho, né?
Então é importante também conhecer quais são os diagnósticos diferenciais. Isso era uma próxima pergunta, inclusive, se tem alguma dica que as pessoas conseguem diferenciar, por exemplo, uma dor de exercício físico, a pessoa começou a academia ou aumentou a carga, a gente sabe, dá aquela dorzinha chata, ou uma, e aquilo as vezes assim de um alerta, que eu já vi até pessoas próximas falarem, ah, eu acho que eu tenho lipedema, porque toda vez da academia eu fico com dor, ou eu chego em casa a marca da calça fica na minha perna, ou eu não consigo emagrecer só a parte das pernas, eu quero diminuir, quero afinar e não consigo, e aí já vem o alerta do lipedema. O que que pra você pode ser um alerta, uma dica pra, até que ponto, né, faz, é algo normal ali? Sim. E até que ponto começa sendo um alerta pra lipedema?
Então assim, a dor pós exercício ela é normal pra todo mundo, né, só que ela passa. Então a dor pós exercício é aquela dorzinha que pra algumas pessoas é gostosa, mas pra muita gente é chata, mas você fez o exercício, você ficou dolorida, passou um, dois dias, acabou a dor. A paciente que tem lipedema ela tem dor constantemente, ela tem dor, por exemplo, de o cachorrinho que tem quatro quilos encostar na perna dela porque vai fazer festa, então ela tem uma, é uma hiper resposta a alguns estímulos que quem não tem lipedema não tem, então essa é uma grande questão quando a gente fala de dor do lipedema, né, é uma perna que dói o tempo inteiro e a toque muito leve, tá?
Então é o marido que senta do lado no sofá e apoia a mão assim, acabou, né? Quem não tem lipedema não é um toque, quem tem lipedema sente dor com isso, então esse é um grande, um grande diferencial, né? Mas a paciente que tem lipedema também é a paciente que tem uma gordura resistente à dieta e exercício, então é aquela paciente sim, e aí quando a gente fala que esse é um quadro importante de se considerar, é a paciente que fala eu fiz dieta a vida inteira, eu restringi muita coisa alimentar, eu faço exercício e eu perco peso e perco medida no tronco e a minha perna continua grande, essa é uma paciente que provavelmente ela tem lipedema, né?
Então existe toda condição estética que a gente precisa avaliar, existem todos os sintomas, mas isso é parte da história da paciente, então ela vem contando uma história que é muito comum, eu tento emagrecer e a minha perna não emagrece, todo o resto emagrece, né? E tem até que ter esse alerta sobre também o que, quando às vezes a paciente nem sabe que tem lipedema ou não tá em tratamento, porque tem alguns exercícios, algumas atividades físicas que ao contrário do que todo mundo fala, o recomendado é fazer dieta, academia, mas também tem exercícios que podem piorar essa condição e piorar os sintomas. Super, então assim, quando a gente fala de exercício, o exercício, o movimentar-se é um dos pilares do tratamento, então a paciente que tem lipedema, ela precisa entender que ela não pode ser sedentária, ponto.
Agora, aquela paciente que nunca fez nada na vida, eu não posso falar pra ela vai correr, porque o exercício de alto impacto, ele pode piorar sim as condições, então é o jump, é a corrida, é o crossfit, por exemplo, num primeiro momento ele vai inflamar mais essa paciente. A musculação, ela é sempre um exercício muito importante, mas pra paciente que tem lipedema, ela precisa, se ela estiver iniciando, ser bem leve e progressiva. Aí, essa paciente que nunca fez nada, ela vai precisar encontrar alguma coisa que dê prazer, mas ela vai precisar fazer. Mas tem muitas pacientes que já são atletas, que são pacientes que tem lipedema, mas que já fazem muito exercício, que gostam de fazer exercício, aí eu não posso pra essa paciente falar ó, você não vai correr, porque ela gosta, porque dá prazer.
Então, o que a gente vai fazer pra essa paciente? A gente vai tentar adaptar o treino, mas permitir que ela continue fazendo o exercício que dá prazer, o exercício que ela gosta, né? Ou de repente interromper aquele exercício naquele momento, enquanto a gente tem um quadro inflamatório agudo, e depois de um momento que a gente controlou a doença e que essa paciente conhece bem o corpo dela e os sinais, ela volta a fazer o exercício com mais impacto. Mas no geral, o exercício, pra todas, ele precisa fazer parte do processo de reabilitação, ele é um pilar. E a reabilitação começa em que momento do tratamento? Você acha que logo que esse diagnóstico acontece, já pode começar?
Porque também depende de qual momento que aquela paciente descobriu, né? Porque a gente falou no início lá dos níveis, pode ser que uma de nível menor tenha mais dor do que uma de nível maior, superior. Pode ser, pode ser. A reabilitação, o lê, ela começa no momento do diagnóstico. O que acontece pra muitas pacientes é que quando elas recebem o diagnóstico, é um misto de emoções, assim, então a paciente acaba passando por uma fase de primeiro alívio, porque fala, nossa, então eu não sou tão culpada, existe uma questão genética, existe uma questão envolvida que não é tudo culpa minha. Depois de negação, puxa, mas eu tenho isso e aí eu vou passar o resto da minha vida convivendo com isso. E depois ela começa a entender que tá tudo bem e que faz parte do processo e que ela vai melhorar.
Mas, no geral, depende de qual condição a paciente tá, de momento de diagnóstico, mas no geral o ideal é que a reabilitação comece logo que essa paciente descobriu o que ela tem. E aí o que a fisioterapia vem, como eu falei no início? É um tratamento de equipe multidisciplinar, então é o médico, é o nutricionista, muitas vezes o educador físico, fisioterapeuta, psicólogo, algumas das vezes precisa tá cuidando dessa paciente. Mas dentro da fisioterapia a gente tem algumas técnicas que a gente consegue modular a inflamação das pernas, diminuir as citoquinas inflamatórias que estão ali entre os tecidos e fazer com que isso seja eliminado através do sistema linfático.
Muitas pacientes falam, nossa, eu saí da sessão de fisioterapia, no dia da sessão à tarde ou no dia seguinte eu tava mais cansado, a sensação é que eu tenho mais sede, é normal? É normal, porque é como se eu estivesse eliminando muita coisa ruim do seu organismo e o seu organismo precisa reagir. Acontece que se daqui dois dias da sessão você volta a fazer tudo que você não devia fazer, principalmente em relação à alimentação, tudo que você fez comigo você perdeu. Então o processo de reabilitar, por isso que eu falo que é reabilitar, é ela entender que ela tá ali, ela precisa de mim, mas que ela precisa dar continuidade. Aí na casa dela eu vou ensinar ela a fazer massagens de autodrenagem, eu vou ensiná -la a fazer a escovação a seco, que diminui um pouco essa hipersensibilização da pele, essa dor excessiva ao toque, a gente vai conversar sobre os exercícios que ela vai fazer em casa, às vezes ativar a bomba muscular da panturrilha já ajuda muito a esse retorno venoso, esse retorno linfático, ajudar a otimizar o que eu fiz na sessão, né.
E aí depois de um determinado momento que ela tá na fisioterapia, que a gente entende que o processo inflamatório tá controlado, que essa paciente conhece o próprio corpo e os gatilhos, então o que que tá deixando ela mais inflamada ou não, a gente já parte para um acompanhamento mais estético, e aí a gente tem alguns recursos que a gente consegue melhorar a flacidez, melhorar a condição de pele, algumas das vezes eliminar um excesso de gordura localizada de alguns pontos, né. Eu tenho cuidado de falar isso porque às vezes as pessoas têm uma expectativa muito alta do tratamento estético e a gente sabe que algumas coisas, o final do caminho é ela tirar aquela gordura com cirurgia, mas até ela chegar naquele momento, ela precisa entender o processo, né, então assim, hoje são poucas as pacientes que eu recebo que vêm de cirurgia e todas elas passaram por um longo tratamento conservador antes, então elas já mudaram a maneira delas de agir e de pensar até elas chegarem no processo cirúrgico, porque depois que ela tira aquela gordura, ela precisa entender que ela tem que fazer a parte dela.
É, acho que esse é um ponto muito importante, inclusive, para a gente usar de encerramento porque a gente também entende, né, sendo mulher, que tem essa certa angústia quando envolve algo estético, que as pacientes querem um resultado rápido, e então você já me deu duas respostas. Primeiro que a fisioterapia é, sim, capaz de, num certo momento, ajudar esteticamente aquela paciente com lipedema, mas também pode ser o caminho e deve ser o caminho até chegar a uma possível cirurgia estética, que muitas vezes é a escolha. Super, porque assim, aquela mulher que escolheu fazer a cirurgia, que ela tá no final do processo, eu acredito muito que a cirurgia precisa ser o fim do processo das pacientes, é a cereja do bolo, né, eu não gosto muito de pensar naquelas pacientes que querem resolver o problema do início e cortar o mal pela raiz sem passar pelo processo.
Então, a cirurgia sendo a cereja do bolo, se ela faz a fisioterapia, ela tá preparando os tecidos para aquela cirurgia, inclusive através de fortalecimento, né, então assim, quando eu vou para a cirurgia com a musculatura preparada, a reabilitação pós-operatória é muito melhor. Por quê? Porque na cirurgia, dependendo do tamanho da cirurgia, você tira muita gordura da perna. Essa paciente, ela vai voltar da cirurgia com dificuldade de mobilidade, ela não vai ter às vezes amplitude completa de movimento do joelho, do tornozelo, do quadril, então se a paciente já tá reabilitada com a musculatura fortalecida e óbvio, sem tanta inflamação naquela perna, o processo de pós-operatório é tranquilíssimo.
E dá para ver uma melhora até na autoestima mesmo, né, eu não tô falando mais da parte estética, mas assim, até do movimento mesmo, né, de tudo isso que a gente tá falando que envolve a reabilitação de forma geral, né. Sim, sim. Recuperar movimento, recuperar independência e às vezes independência é conseguir subir um lance de escada, que antes não acontecia, né, porque pra gente parece muito distante, mas elas têm muita dificuldade. Isso é recuperar qualidade de vida, isso é trazer essa mulher de volta para o contexto às vezes social, às vezes de trabalho, entende? Então assim, é muito mais do que só enxergar aquelas pernas, né, é por isso que eu acredito muito na reabilitação nesse sentido, assim, de inserir de volta para o contexto, de trazer qualidade de vida.
É, não, e tem muito caso, até ia te perguntar, aproveitar esses últimos minutinhos, que é uma pergunta muito interessante, que algumas pessoas trouxeram histórias legais pra gente. Você já viu alguma paciente que chegou sem esperança ou que tinha assim, que dava para ver aquela tristeza por conta do diagnóstico, tudo, e com a reabilitação conseguiu, é muito comum ler. E assim, a gente tem que pensar que a gente vive em comunidade, então às vezes é aquela mulher que tá sem esperança, porque também todo mundo que tá em volta dela tá falando um monte de coisa que naquele momento não é legal ela ouvir, né. E aí ela começa a entender que só depende dela, que ela tá fazendo direito, que, puxa, eu tô melhorando, eu tô perdendo medida, eu tô conseguindo me movimentar melhor, meu joelho tá dobrando e não tá doendo, que ela vai crescendo, né, e crescendo nesse sentido de nossa, eu sou capaz, nossa, eu posso.
E às vezes uma pequena melhora é o que faz tudo melhorar, né, porque já tem aquele que a gente tava falando, de um contexto e vários, vários lados, né, vários pontos que é tudo, é tudo melhorar, assim, é a questão social, é a família, é por isso que o reabilitar é olhar além, né, porque é muito mais do que só aquela perna grossa. É isso. Ah, legal Mari, obrigada pela sua participação. Obrigada pelo convite. Vou deixar também aqui os nossos links das conversas anteriores, que a gente conversou um pouco sobre o lipedema, né, das outras vezes. Sim, sim. Então acho que é importante para quem quer saber um pouquinho mais do assunto e também vou aproveitar e pedir para você deixar alguma rede social, algum site, o que você preferir, para quem ficou interessado no assunto poder te procurar.
Tá, é o meu instagram é arroba marimilazotto, com dois e's e dois t's. O site tá muito legal, é novo, é fisiomarimilazotto.com.br e o youtube marimilazotto, também com dois e's e dois t's. A gente fala de vários assuntos, não só de lipedema, são assuntos relacionados à fisioterapia. Legal, obrigada mais uma vez pela sua participação. Obrigada. Obrigada a você que acompanhou até aqui, não deixe de acompanhar os nossos próximos episódios e também os episódios anteriores. A gente está sempre lançando vários temas aqui sobre o lipedema talx. Obrigada e até a próxima. Tchau!
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